Selva de pedras

Walber-Gonçalves-de-Souza3.jpgNosso tempo é conhecido não apenas pelo progresso científico ou o forte sentido de individualismo e desespero, como falamos na crônica precedente. Se a cultura individualista se sobrepõe fazendo sentir a sua própria insensibilidade, sem dúvida existe uma característica rotulante daquilo que vivemos em nossos dias como profunda mudança nos valores e na forma de ver a realidade que sentimos com toda força: a selva de pedras. É certo que o leitor pode pedir – com justiça – uma explicação acerca dessa palavra enigmática. O que quero falar com “selva”?

Vivemos em certo sentido como pessoas que não reconhecem mais o verdadeiro fundamento da vida, do tempo ou, talvez, do próprio existir, que tornou-se qualquer coisa manipulável, possível de mudar segundo pensamos. Em nada mais nos demoramos; tudo é fruto de uma mudança veloz e desgovernada. Aquilo que Heráclito chamava de estado permanente de mudança da natureza, agora aplica-se aos sistemas econômicos, ao pensamento e ao social media.

A selva de pedras poderia primeiramente refletir a realidade das cidades grandes, onde construções edificam-se a todo instante e não há momento em que nada esteja sendo construído, porque construir representa não apenas a expansão demográfica, mas trabalha estética e empreendedoramente o reflexo do impulso econômico que se exerce sobre determinada localidade. Passamos a todo instante ao lado de construções, de projetos estampados com sinônimos como “Brasil: um país de todos” ou “Governo Federal: ordem e progresso”. Sem entrar no positivismo de Comte que vem assinalado em nossa bandeira nacional, me pego de fato pensando e questionando: “país de todos” ou “ordem e progresso” não são no máximo a representação de uma parte ínfima da população, nominalmente conhecida também como “governantes”? Hoje podemos assistir mais significativamente a queda da meritocracia brasileira, revestida durante muito tempo de falsa democracia. Construir tornou-se sinônimo de apostar no futuro, no potencial financeiro, criando também falsas certezas naqueles que o fazem. Pode ser que o comércio venha a não dar rendimento necessário ou que a economia, como vimos recentemente, chegue à beira do penhasco. Ainda assim, ousa-se apostar!

Por outro lado, relevando os aspectos negativos (fosse assim ninguém em nada apostaria), a consequência da sociedade de pedras está para além dos engenhos arquitetônicos. As pedras hoje não são aquelas que sustentam os grandes prédios, museus, fortes, palácios ou catedrais, às vezes medievais. Agora elas são os homens, ilhas falantes, pedras que andam, verdadeiras rochas, apáticos a qualquer reação externa. A condição foge da simples linha filosófica e chega a tornar-se patológica. O ritmo de vida frenético não nos permite olhar para os quatro lados, muito menos para cima. O pensamento vagando desmesuradamente não vê abaixo quem estende a mão. Perdidos de nós e perdidos em nós, parecemos encarnar a possibilidade de que os zumbis não são tão impossíveis de se tornarem realidade: já o são agora nos ativistas que programam-se metodicamente sem usufruírem da beleza de viver.

De repente, ouve-se um grito. Uma mãe chorosa, uma esposa lamentando-se, filhos inconformados. Alguém tão desatento foi atropelado pelo tempo. O famoso escritor português José Tolentino, poeta, padre e literato, escreveu um opúsculo intitulado Libertar o tempo, no qual propõe uma imediata “arte da lentidão”. Essa seria o empenho do homem diante da sua existência metódica e enfadonha, onde o ritmo agitado parece dar-lhe uma proporção além de sua conta. Projeta-o para ser o que não suporta. Sobrecarregado, deixa que a vida passe por ele sem que ele passe pela vida. Ao invés de protagonista, torna-se, à maneira de Ésquilo, deuteragonista, personagem secundário. O lema do “bom vivant” encaminha-se por obviedade na linha contrária de quem assume o controle de sua vida.

Selva de pedras, de prédios e de gente. Pode alguém sentir-se bem nesse ambiente de indiferença? As relações interpessoais veem-se afetadas e os dilemas parecem ainda mais angustiantes. Talvez seja esse o momento de avaliarmos o eu como espaço das perguntas… Isso, porém, trabalharemos em breve.

Até a próxima!

Ian Farias

As serpentes de Apolo

Ultimamente tenho pensado em como gostaria de viver na Dinamarca onde nada acontece desde a época dos vikings. Quanta agitação política se tem visto!  O triplex da política está fortemente sacudido pela onda de terremotos. 

Mas foi num recente documentário onde recordei uma figura por muito esquecida – mas não apagada – de minha mente. Laocoonte e seus dois filhos, Antífantes e Timbreu, é uma representação que está conservada no Museu Vaticano. Segundo relata a mitologia, foi estrangulado por duas serpentes marinhas, uma lenda da Guerra de Troia também relatada na Eneida de Virgílio. Laocoonte teria sido sacerdote de Apolo, e irritou o deus, ou por ter se casado e tido filho, ou por ter arremessado uma lança contra o cavalo de Troia. Em vingança, Apolo teria enviado os répteis para matar seus filhos, e Laocoonte foi morto ao tentar salvá-los.
Temos hoje as nossas serpentes, Laocoonte e os seus filhos. Não é minha pretensão fazer anacronismo; já temos tantos, caro leitor! Aliás, é pouco original esta ideia de forçosamente inserir o passado no presente, tentando tornar a leitura ideal de fatos que historicamente podem não caber ao ponto que nos situamos. Malgrado, não é de todo ruim relembrarmos que certos erros de outrora podem incidir sob novas roupagens em nossa sociedade, levando-nos a rememorar exemplos já tidos. Embora a citada estória seja parte do arcabouço helênico, temos crises similares de perda do bom senso que faz crer podermos atirar lanças ao cavalo de Tróia brasileiro. As serpentes denominá-las-emos: Senado e Câmara.

Todo povo é dotado de história e memória. Desfalcando-se uma dessas, perde-se a identidade do homem, isto é, seu passado. O Brasil parece estar sob forte influência do mal de Alzheimer, que o fez esquecer suas fontes, os entraves e percalços que sujeitou-se para chegar ao Estado de direito democrático. 

A política e a economia veem-se desafiadas. Estamos sendo alvos de uma crise jamais vista desde os tempos Collor. Em 2013, com a saída de milhares de brasileiros às ruas, o grito manifesto era de maior dignidade para o povo e de uma política transparente e honesta – substantivos, para nós, infelizmente tornados antagônicos. Desde ali, não tivemos paz, sucedendo-a logo após a operação Lava Jato. 

Quando não se conjuga política com seriedade, beiramos a bestial infantilização que vergonhosamente pinta o quadro do país mundo a fora. Quem olha para nós externamente não é capaz de admirar-se com o nosso potencial de belezas naturais e com a possibilidade de crescimento econômico. Já não estamos deitados em “berço esplêndido”, e sim selados pela degenerada atitude dos nossos des-governantes. Não quero delegar a estes a função angelical que não lhes pertence, seria irônico demais se o fizesse. Mas diante das incertezas e constatações, vejo-me obrigado a apontar que o defeito está não no sistema em si, mas em seus sistematizadores, isto é, nos que fazem o sistema acontecer. Não sou – dissera numa anterior publicação do Facebook – daqueles vitimados – ou que ao menos assim se fazem – por não ter um sistema monárquico em vigência. Se a Monarquia nos caiu bem durante anos, após uma interrupção de mais de cem seria brutal impor que vigorasse outra vez. 

Caso diferente ocorre na Inglaterra, onde mantém-se vigorosa sob a regência da rainha Elizabeth II, que provavelmente deixará de governar na segunda vinda de Cristo. Nesse reduto histórico do século XXI, os conflitos insurgem a partir da difundida ideia de aniquilação dos valores éticos e morais. Suscito, assim, uma pergunta pertinente: são os políticos corruptos ou são os corruptos a se tornarem políticos? Se levarmos em conta que o problema está no sistema, mudando o sistema talvez resolvêssemos a crise. Olhando para trás veremos que a monarquia esteve sujeita ao mesmo problema, Roma em seu poderio ainda mais. A religião justifica que desde o pecado de Adão e Eva há uma facilidade generalizada no homem para a prática do mal e a tendência de corromper-se, essa facilidade pode ser vencida ou não pelo bem.

Acredito que o nosso futuro está potencialmente oculto sob a possibilidade de relembrarmos os valores que regem a nossa conduta humana. Não somos seres desprovidos de parâmetros. Os parâmetros nos ajustam de acordo a realidade que permeia e borbulha ao nosso redor, afinal, estaremos sempre no fio da meada.

Boa semana!