Solenidade do Natal do Senhor

Novamente o Natal nos põe diante de uma expressão significativa para a nossa fé: a humildade de Deus. No Menino que nos é anunciado nesta Noite Santa, encontra-se o supremo sinal de humildade que inquieta o coração e renova o convite insistente de deixar-nos tocar por esta mesma simplicidade. Novamente somos também reconduzidos ao dramático cenário de Belém, da situação de Maria e José, da presença dos pastores e do coro angélico que entoa o hino de louvor pelo anúncio tão esperando. Este mesmo anúncio não cessou naquela noite fria, mas ultrapassou os limites da história, atingindo homens e mulheres que se permitiram alcançar pela Palavra.

Outra vez nos encontramos diante da figura frágil de um bebezinho, da indefesa manifestação de um recém-nascido que em sua pobreza transmite-nos muito mais do que podemos intuir. Belém não é um sinal incomum se pensado nas realidades que circundam a humanidade ferida pelo egoísmo e pela indiferença. Ao contrário, vemos o cenário multiplicar-se rapidamente, alcançando mesmo os ambientes ditos globalizados. Isso nos remete à importante realidade do isolamento no qual está o homem da pós-modernidade, vilipendiando a relação de fraternidade e a natureza de filho de Deus. Natal é a festa da filiação divina, da adoção filial. Em Jesus Cristo, podemos chamar Deus de “Pai”; pedimo-lo não como criaturas quaisquer. Nossa condição foi elevada pela descida do Salvador. Entrando no mundo, assume a fragilidade e dá a ela novo significado. Precisamente nesta relação de purificação, encontram sentido as palavras de São Paulo pronunciadas na segunda leitura: “Ele se entregou por nós, para nos resgatar de toda maldade e purificar para si um povo que lhe pertença e que se dedique a praticar o bem” (Tt 2,14). Interrogar-nos-emos: temos praticado o bem como quesito fundamental da nossa identidade divina? Acaso não deixamos que os sinais de devastação e morte superassem a fecundidade da vida radicada na mensagem evangélica? Não temos convivido em nosso mundo esquecendo os largos horizontes para os quais deve convergir a nossa atenção?

Ao tempo em que avança a consciência pela “globalização da solidariedade”, incentivada pelos últimos Papas, sentimos o peso desafiador de outra forma de globalização que tem disseminado sinais destrutivos, inibido a fecundidade da paz e da justiça: a globalização da indiferença. De fato, devemos recordar-nos sempre que “a globalização torna-nos vizinhos, mas não nos faz irmãos” (Caritas in Veritate, 19). Esta elementar característica só poderá ser descoberta se nos permitirmos tocar pela sensibilidade mística de Deus. No Menino que hoje nasce em Belém, não há espaço para os não-atentos às necessidades do momento presente, permanecendo reticentes diante da dor alheia; não há espaço para os aniquiladores da paz e incitadores do ódio. Estes não podem entrar no estábulo para adorar o mistério grandioso porque permanecem com as portas fechadas e o coração indiferente. Sentimos novamente ressoar o versículo apocalíptico no qual se reconhece a plena faculdade da nossa liberdade: “Eis que estou à porta, e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele e ele comigo” (Ap 3,20).

A composição de uma sociedade centrada na autonomia humana fez com que fossem fechadas as portas para Deus. Ele não é mais prioridade, não conta entre as necessidades básicas para a vida. Às mentes ditas “intelectuais”, Deus se tornou um problema que, longe de ser investigado e conhecido, foi esquecido, subtraído às instâncias extras. Nesta hora, contudo, fazemos do nosso hoje o hoje de Belém, e rezamos: Senhor, Deus da simplicidade, da pobreza e da fragilidade, demonstra ao mundo a tua força salvadora. Toca os corações gélidos e fechados diante do clamor dos que nos cercam; retira-nos do comodismo que causa insensibilidade. Queremos dirigir-nos ao teu encontro para que Tu, como fizeste em Belém, nasça uma vez mais em nossos corações e aqueça a nossa existência com o calor do amor.

A liturgia da Igreja sabiamente associa os versículos de Isaías com o acontecimento de Belém. O profeta narra a situação conflituosa do seu tempo com palavras pesadas e, até certo ponto, evidenciando o contexto realístico no tempo de Jesus. As botas de tropa de assalto, os trajes manchados de sangue, o cenário bélico, falam muito onde já não reinam paz e esperança. Acrescenta, entretanto, de forma consoladora: “tudo será queimado e devorado pelas chamas” (cf. Is 9,4). Quando o homem já não é mais capaz de elevar os olhos ao céu, de reconhecer o seu lugar no plano da criação e adorar a majestosa grandeza de Deus, não pode ter esperança; torna-se infértil.

Colocando-se como supremo artífice do novo tempo, ignora as referências àquele que pode destinar-nos para horizontes de serenidade. Sobre Ele, Isaías afirma ser o seu nome “conselheiro admirável, Deus forte, Pai dos tempos futuros, Príncipe da paz”, e ainda: “a paz não há de ter fim sobre o trono de Davi e o seu reinado” (v. 5-6). Em todos os cantos vemos a proliferação da guerra conduzir inúmeros inocentes ao derramamento de sangue. Envergonhece-nos a unificação de nações empenhadas em erradicar a violência com mais violência, expostas aos níveis mais brutais, pretendendo impor falsamente um conceito de paz. Lembramo-nos ainda dos instrumentalizadores da paz, quer no artificio político, quer na violação da dignidade humana. A promessa de Deus parece ter falhado e o seu nome incita a violência.

Para os homens dos tempos pré-cristãos, Belém os conduziria a uma nova dimensão divina que desconheciam em seu período histórico, uma consolante certeza: Deus é bom; Ele é a verdadeira paz! Nele está a esperança que não vacila ou decepciona. Sua natureza é desvelada colocando-se em direto contato conosco, não havendo mais necessidade de intermediações e sinais. Esta mesma comunicação é dita já pelos anjos na noite santa de Belém: “Hoje na cidade de Davi nasceu para vós o Salvador, que é Cristo Senhor” (Lc 2,11).

Os pastores não hesitaram, tomando imediatamente a estrada que os conduziria ao recém-nascido. Com eles, percorramos interiormente este caminho que nos direcionará ao mesmo cenário e elevemos uma prece por aqueles que devem viver o Natal na pobreza, no sofrimento, no exílio da pátria. Pedimos pelos subjugados ao exílio de si mesmos, vivendo no isolamento a novidade que renova o gênero humano. Que o Senhor nos toque com sua paz, dada a nós por meio de Seu Filho e anunciada pela boca dos anjos. Que o fogo purificador queime toda maldade, todo espírito de violência e desamor. Amém.

 

I Domingo do Advento – A compreensão escatológica do amor

(I Leitura: Is 2,1-5      II Leitura: Rm 13,11-14a      Evangelho: Mt 24,37-44)

Com o início do ano litúrgico A, ano de São Mateus, a Igreja nos insere novamente na celebração do tempo do Advento, estimulando-nos a compreensão divina do mistério da primeira vinda de Cristo sem deixarmos de meditar sobre a segunda, que se dará na dimensão escatológica, onde poderemos contemplar a face de Deus incessantemente conforme enuncia o salmista: “Que alegria quando me disseram: ‘Vamos à casa do Senhor! ’” (Sl 121). Jerusalém é transposta e assumida aqui na simbologia de casa: a eternidade. Lá é o local da verdadeira morada dos que peregrinam neste mundo esperando conforto e paz em Deus. A cidade santa que detinha grande parte das peregrinações e do destino dos transeuntes era o fulcro da comunidade hebraica na época de Jesus e ainda hoje. Ali estava o santo dos santos, no templo – posteriormente destruído, restando apenas duas de suas paredes ocidentais, Muro das Lamentações; lá estava o monte das Oliveiras, onde situava-se um cemitério, local sagrado aos judeus; o centro do judaísmo estabeleceu-se ali porque dali emanava a palavra do Senhor (cf. Is 2,3). Enfim, dentre tantas coisas, era marcada como sinal da paz, o lugar de Deus, da serenidade, da alegria. Compreensível que por isso o salmista tivesse dito: “Se algum dia de ti eu me esquecer, Jerusalém, que resseque a minha destra e se prenda a minha língua ao céu da boca” (Sl 137,5-6).

Os salmos cantam a beleza deste centro da fé judaica com exatidão poética. Encontramos diversos escritos e poderíamos enumerá-los se isso não demandasse tempo, paciência do leitor e paciência do escritor. O Novo Testamento nos presenteou com um conceito mais expansivo de Jerusalém que não o da cidade santa. O autor da carta aos Hebreus escreveu: “Chegastes ao monte Sião, à Jerusalém celeste, à cidade do Deus vivo, ao coro de milhares e milhares de anjos, à assembleia festiva” (12,22) Existe uma cidade celeste para a qual todos caminhamos, onde nossos olhos poderão cessar as lagrimas porque a nossa boca dará risos e o coração será acalantado pela contemplação de Deus. Essa cidade não é utopia, forma lúdica de sustentar a fé dum grupo para não esmorecerem no percurso.

O ciclo do Advento que hoje começamos nos insere no mistério escatológico da fé, preparando-nos para a celebração do nascimento do Menino Deus. Neste tempo, oportunamente, mergulhamos naquele advento definitivo, marcado pela promessa da parusia. Não faria sentido, de fato, falarmos do Natal hoje sem que nossos corações se predispusessem a um preparo eficaz da segunda e definitiva vinda, na qual o Senhor nos chamará a Juízo para prestarmos-lhe conta de nossas ações em vida. Falar do Natal é consirderar o Cristo juiz que virá para completar a obra um dia começada pelo Pai. A parábola do juízo final nos faz compreender melhor esta visão, por vezes assustadora e punitiva (cf. Mt 25,31-46).

Na parede central da Capela Sistina encontra-se uma das mais famosas obras de Michelangelo e um dos mais conhecidos retratos da fé cristã: o Juízo final. O afresco é composto por cenas religiosas e mitológicas. Gostaria, contudo, de deter-me na figura do Cristo para que a maravilha dos detalhes não desfoque a nossa atenção. O Cristo que o artista nos faz ver é extremamente exótico daquele construído por nossa mentalidade. Uma figura robusta, musculosa, com um peso no olhar quase a deixar transparecer severidade inigualável. Sentado sobre a nuvem, ergue a mão exprimindo sua autoridade e determinação, afastando os pecadores ao mesmo tempo em que parece proteger a mãe temerosa, em posição vulnerável. Um cenário de susto e de terror.

Mas existe um sentido pelo qual crer que não nos intimide na obscuridade de um pensamento precipitado sobre esta cena mistagógica? Na figura do Cristo de Michelangelo parece estar sintetizada a emancipação daquele padrão icônico e misericordioso. Talvez devêssemos perguntar-nos: não está em tudo isso algo mais do que uma expressão da “ira” de Deus pelos pecados? Diria por detrás de tudo estar o amor. Somente ele pode mover-nos apaixonadamente em direção ao que virá exercer sua função de Senhor da história. A compreensão do amor de Deus é o ato do seu deslocamento da eternidade na direção do homem. Saindo da inacessibilidade, o Senhor aperfeiçoa, ou melhor, muda radicalmente o conceito de “deus”; aclara, por assim dizer, o exercício do movimento interno que cada ser humano é chamado a cumprir até a meta divina. Relação recíproca: Deus vem ao homem, o homem vai a Deus; perfeito e imperfeito entrelaçaram-se favorecendo a purificação autêntica, não recriminativa de diferenças biológicas ou sociais, encerrando todos no seu amor.

Vigilância é a outra palavra que sussurrará em nossos ouvidos durante estes quase 30 dias. Mateus em seu evangelho coloca na boca de Jesus a sua comparação com Noé. “A vinda do Filho do Homem será como no tempo de Noé. Pois nos dias, antes do dilúvio, todos comiam e bebiam, casavam-se e davam-se em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca. E eles nada perceberam, até que veio o dilúvio e arrastou a todos” (Mt 24, 37-39).

Ainda no início da Escritura, encontramos a narrativa do dramático acontecimento do dilúvio. No tempo de Noé, Deus se sentira profundamente ferido pela depravação moral em que se encontrava o povo que tivera criado. Diz o texto que “A terra se corrompeu diante de Deus e se encheu de violência. Deus olhou para a terra: estava toda corrompida, pois toda carne se pervertera sobre a terra” (Gn 6,11-12). O pecado estava assinalado na primeira criação, consequência da decadente escolha de Adão e Eva. Todos conhecemos a história da “arca”, sabemos como veio a terminar. Já em nossa era, os Padres da Igreja associaram a figura da arca com a Igreja e o dilúvio com o batismo.

Nas páginas mudas, passamos a qualquer coisa que nos faz vibrar interiormente. Jesus Cristo anunciando a sua vida como o dilúvio, pretende advertir-nos para que não submerjamos como, outrora, submerjeram aqueles que negligenciaram o compromisso com Deus. A Noé não foi permitido que anunciasse nada, mas o novo Noé, Jesus, pode agora difundir o anúncio da salvação, conclamando os povos à conversão e estatuindo a sua “Arca” na figura da Igreja. Doravante, não mais serão os homens a perderem a vida, senão os nossos pecados a serem afundados nas águas batismais, preparando-nos para o novo tempo no qual dignifica-nos unicamente o título de “filhos de Deus” (1Jo 3,1).

Maria, Mulher da espera e da esperança, nos ajude a trilhar com proficuidade esta via que nos conduzirá novamente a Belém, local de onde emana para o mundo os raios da salvação e da paz. O convite hoje é profético: “Vinde todos da casa de Jacó e deixemo-nos guiar pelo Senhor” (Is 2,5).