Perguntar-se, para quê?

Perguntar é sinal de vida, sinal de questionamento permanente da realidade, distante do sensus mortis assinalado pela não possibilidade de perguntas. O sentido da vida “mora” nas perguntas. Perguntar-se é forma precisa para manter-se vivo. Quem não pergunta, já não vive; morre interiormente. As profundas aspirações do homem são evidenciadas nos seus questionamentos. Perguntar é mais imprescindível do que responder.

Para os que têm tendência imediatista, as perguntas não são mais do que um processo dificultoso para se alcançar determinado objetivo. Para os sábios, as perguntas são o real sentido de continuar vivo. A descoberta cotidiana do que realmente vale a pena, as experiências diárias que somam aos nossos anos, nos fazem repensar: por que? Tantas interrogações não nos desnorteiam, antes, nos motivam a dar passos concretos, a deixar o plano ideológico e utópico e adentrar no mundo do que é mais próprio nosso: a incerteza. Sem dúvidas não viveríamos, prova o nosso título. Até mesmo pelas perguntas se deve perguntar, e seria um infortúnio imenso não fazê-lo já que o podemos.

Somos seres incertos: dormimos hoje sem saber se acordaremos amanhã; viajamos sem saber se chegaremos; rezamos sem saber se seremos atendidos; desejamos sem saber se aquele pensamento tornar-se-á concreto. Vivemos no tempo da dúvida, das lacunas. Penso que aqui deveríamos começar a mudar nossa visão negativa sobre a interrogação, sobre quem duvida. Certa feita, folheando uma revista, lembro-me de ter lido a seguinte frase: “Quem faz uma pergunta é ignorante por alguns segundos, quem não faz perguntas permanece ignorante para sempre”. O nosso maior medo não pode ser o da ignorância passageira, à qual todos estamos de certa forma subjugados. O pior é aquela angústia de ignorância permanente de quem diante das perguntas sempre tem respostas prontas, disparadas como flechas. Nos tornamos seres “da palavra”, quando deveríamos ser pessoas do pensamento e do silêncio.

Obviamente os meios de comunicação proporcionaram a evasão das perguntas em detrimento das respostas. A humanidade foi engolida pela voracidade e velocidade a eles atribuídas. Não é à toa que frequentemente confundimos essa parafernália de tecnologias com os valores mais importantes para a vida. Nos apegamos às respostas que o Google pode nos levar e não àquelas que o coração nos pode conduzir. Reduzimos a qualidade de vida porque, relativizadas as perguntas, nos detemos na possibilidade tangente e formal das respostas. Já não se contempla o desconhecido como “epifania” (manifestação).

“Uma das raízes do problema do mundo é que os idiotas estão cheios de certezas e os inteligentes estão cheios de dúvidas”, dizia Bertrand Russell. Sendo lógico, Russell não considerou que talvez os poetas estejam mais certos: os idiotas têm certezas quando deveriam ter dúvidas e os inteligentes tem dúvidas e, por isso, são inteligentes. Se tivessem convicção plena de tudo não questionariam nada, seriam tão idiotas quanto os acusados.

Boa semana!

Selva de pedras

Walber-Gonçalves-de-Souza3.jpgNosso tempo é conhecido não apenas pelo progresso científico ou o forte sentido de individualismo e desespero, como falamos na crônica precedente. Se a cultura individualista se sobrepõe fazendo sentir a sua própria insensibilidade, sem dúvida existe uma característica rotulante daquilo que vivemos em nossos dias como profunda mudança nos valores e na forma de ver a realidade que sentimos com toda força: a selva de pedras. É certo que o leitor pode pedir – com justiça – uma explicação acerca dessa palavra enigmática. O que quero falar com “selva”?

Vivemos em certo sentido como pessoas que não reconhecem mais o verdadeiro fundamento da vida, do tempo ou, talvez, do próprio existir, que tornou-se qualquer coisa manipulável, possível de mudar segundo pensamos. Em nada mais nos demoramos; tudo é fruto de uma mudança veloz e desgovernada. Aquilo que Heráclito chamava de estado permanente de mudança da natureza, agora aplica-se aos sistemas econômicos, ao pensamento e ao social media.

A selva de pedras poderia primeiramente refletir a realidade das cidades grandes, onde construções edificam-se a todo instante e não há momento em que nada esteja sendo construído, porque construir representa não apenas a expansão demográfica, mas trabalha estética e empreendedoramente o reflexo do impulso econômico que se exerce sobre determinada localidade. Passamos a todo instante ao lado de construções, de projetos estampados com sinônimos como “Brasil: um país de todos” ou “Governo Federal: ordem e progresso”. Sem entrar no positivismo de Comte que vem assinalado em nossa bandeira nacional, me pego de fato pensando e questionando: “país de todos” ou “ordem e progresso” não são no máximo a representação de uma parte ínfima da população, nominalmente conhecida também como “governantes”? Hoje podemos assistir mais significativamente a queda da meritocracia brasileira, revestida durante muito tempo de falsa democracia. Construir tornou-se sinônimo de apostar no futuro, no potencial financeiro, criando também falsas certezas naqueles que o fazem. Pode ser que o comércio venha a não dar rendimento necessário ou que a economia, como vimos recentemente, chegue à beira do penhasco. Ainda assim, ousa-se apostar!

Por outro lado, relevando os aspectos negativos (fosse assim ninguém em nada apostaria), a consequência da sociedade de pedras está para além dos engenhos arquitetônicos. As pedras hoje não são aquelas que sustentam os grandes prédios, museus, fortes, palácios ou catedrais, às vezes medievais. Agora elas são os homens, ilhas falantes, pedras que andam, verdadeiras rochas, apáticos a qualquer reação externa. A condição foge da simples linha filosófica e chega a tornar-se patológica. O ritmo de vida frenético não nos permite olhar para os quatro lados, muito menos para cima. O pensamento vagando desmesuradamente não vê abaixo quem estende a mão. Perdidos de nós e perdidos em nós, parecemos encarnar a possibilidade de que os zumbis não são tão impossíveis de se tornarem realidade: já o são agora nos ativistas que programam-se metodicamente sem usufruírem da beleza de viver.

De repente, ouve-se um grito. Uma mãe chorosa, uma esposa lamentando-se, filhos inconformados. Alguém tão desatento foi atropelado pelo tempo. O famoso escritor português José Tolentino, poeta, padre e literato, escreveu um opúsculo intitulado Libertar o tempo, no qual propõe uma imediata “arte da lentidão”. Essa seria o empenho do homem diante da sua existência metódica e enfadonha, onde o ritmo agitado parece dar-lhe uma proporção além de sua conta. Projeta-o para ser o que não suporta. Sobrecarregado, deixa que a vida passe por ele sem que ele passe pela vida. Ao invés de protagonista, torna-se, à maneira de Ésquilo, deuteragonista, personagem secundário. O lema do “bom vivant” encaminha-se por obviedade na linha contrária de quem assume o controle de sua vida.

Selva de pedras, de prédios e de gente. Pode alguém sentir-se bem nesse ambiente de indiferença? As relações interpessoais veem-se afetadas e os dilemas parecem ainda mais angustiantes. Talvez seja esse o momento de avaliarmos o eu como espaço das perguntas… Isso, porém, trabalharemos em breve.

Até a próxima!

Ian Farias

O homem prisioneiro de si

O século XX ficou conhecido como o período das ditaduras mais repressivas e desumanas da história. De um lado os nazistas com a sua fábrica de horrores na Alemanha, invadindo os países no intuito de unificar todas as nações sob um regime. Com a ideológica raça ariana, eliminou judeus (6 milhões de mortos), homossexuais, negros, deficientes. Os campos de concentração tornaram-se o cenário da vergonha sobre até onde pode chegar o ser humano. A maldade humana viu-se escancarada em todo o seu potencial. Do outro a Rússia, fincada no comunismo, devastando países e mais países, posteriormente invadiu também a Europa com um projeto mais pacífico que os nazistas, mas instalando sorrateiramente a falta de fé e o totalitarismo. Sobre o número de mortos, fala-se mais ou menos de 100 milhões, segundo O livro negro do comunismo. A promessa de esperança dos comunistas naufragou quando tirou Deus do seu horizonte e no lugar colocou a luta pelo homem como única resposta aos anseios da existência. Os europeus logo lembraram-se de suas origens e ressuscitaram entre si o ideal primeiro que durante séculos moveu a história e a cultura do seu continente.

A grande questão não são os regimes precedentes, que tanto retalharam a dignidade do ser humano. Após essas ferrenhas ditaduras que mataram os homens do passado, estão as que matam os homens do presente, não mais com o cenário desolador dos campos de concentração, senão com a ideia da autossuficiência que pretende fazer o homem impor-se como senhor de si, estatuindo claros limites entre o bem e o mal, denegrindo a sua condição de ser. A raiz dos males de hoje não foram surgimentos repentinos, provindos do nada, mas a consecução de fatores que eclodiram na presente construção do pensamento pós-moderno (modernidade liquida). É sobretudo entre os religiosos, educadores (de modo particular, nós professores), pais, que se inicia o processo de desconstrução ou de não-aderência a essa posição.

A ditadura vigente em nosso tempo, deliberadamente, chama-se individualismo ou autossuficiência. Chamamo-la assim porque tem a pretensão de confinar o homem em suas próprias forças, reduzindo-o a esse potencial de intelecção e ação que não é capaz de alçar longos voos além do seu círculo social e político. Toda corrente ideológica de isolamento do homem é em si um processo de autodestruição, de ruptura, de perda do rumo, o verdadeiro retrocesso que não compreende a possibilidade do diálogo e do crescimento, o confinamento em um mundo psicológico, longe de toda possível convivência com o mundo real. Sim, não podemos negar que em grande parte o impulso desse isolamento foi dado a influência causada pelos meios de comunicação, que estabeleceu uma barreira entre o idealismo e o real, levando-nos a pessoas capazes de sonhar muito, mas de nada fazer para que o sonho ganhe dimensões concretas.

Somos, portanto, prisioneiros de uma ditadura mais daninha porque não é uma força externa que se impõe ao interno, mas internamente já nos fizemos cativos de uma condição fraca, débil e vulnerável a qualquer forma de pensamento. A antiga competição por quem lia mais livros ou produzia mais obras, ganhou nova roupagem na futilidade das competições por quem tem o corpo mais escultural ou a melhor academia ou a melhor roupa… Resta pensar já não existir mais o sentido real do homem. Aquele desejo incontido que Schopenhauer fala em sua obra O mundo como vontade e como representação parece cada dia mais latente.

A conquista da independência é necessária, mas independência não é sinônimo de individualismo, autossuficiência ou isolamento. Saber-se independente é usar de uma autonomia responsável e respeitável, pensando no bem dos que nos circundam e nos direitos e deveres dos quais a consciência nos encarrega. Segundo afirmava o Cardeal John Newman: “A consciência tem direitos, porque tem deveres” (A Letter Addressed to His Grace the Duke of Norfolk: Certain Dificulties Felt by Anglicans in Catholic Teaching. Uniform Edition: Longman, Grenn and Company, London, 1868-1881, vol. 2, p. 250). Alguns critérios modernos propõem em novo modo a relação da liberdade com a consciência moral, com a natureza humana e a consciência. Tal relação vê-se pautada em critérios que pressionam uma inserção forçosa aos “padrões” culturais e sociais, tão frequentemente nomeados como “moda”, “estilo”, “do momento”.

Fica o convite a não nos contentarmos ao pensamento massivo da mídia, nos lançando na desafiadora e necessária busca acerca do homem e do seu papel fundamental na sociedade. O espaço ideal é a consciência, ampliando-a aos locais de convivência e socialização: escolas, igrejas, trabalhos, residências. Retirar-se do isolamento para compor o cenário da Pólis, segundo Aristóteles, o espaço fundamental para exercer o seu papel e tornar-se ser de virtudes.

Bom final de semana!

Existencialismo ateu? Entenda a crítica de Bento XVI

Vivemos ainda permeados pelos traços da filosofia existencialista em muitos aspectos. A nossa sociedade e o nosso contexto de pensamento estão mergulhados profundamente nas questões mais complexas a respeito do ser humano. Com isso, as fortes descargas elétricas das correntes filosóficas depois da Idade Moderna suscitaram no pensamento filosófico uma pertinente pergunta a respeito do homem que incluía, para além de uma visão antropológica tradicional, o inquietante aspecto da angústia. Sacudidos violentamente pelos conflitos bélicos suscitados no final do século XIX e início do século XX, o homem pós-moderno passou a buscar uma forma de responder aos anseios no qual encontravam-se imersos. Nasce então a corrente existencialista, que tinha como cerne do seu pensamento justamente a angústia. Essa era a sua filosofia principal, o fio condutor no qual haveriam de desenvolver seu trabalho.

Basicamente poderíamos resumi-lo em duas correntes: existencialistas ateus e existencialistas não-ateus. Obviamente, o existencialismo ateu sobressaiu com muito mais expoente do que o existencialismo cristão, uma vez que, ao menos em tempos modernos, os ateus se empenharam mais em afirmar a não-existência de Deus do que os cristãos em afirma-Lo existente. Duas grandes figuras destacam-se: Merleau-Ponty e Sartre. Havia a consciência que nada poderia aniquilar a angústia humana porque nada responderia definitivamente aos anseios e interpelações que o indivíduo carregava consigo.

Sartre, talvez um dos mais reconhecidos filósofos dessa corrente, ampara-se sobre sua formulação para questionar o aparente “apego” ou a crença do homem em Deus. Em duas sentenças taxativas assim pode-se condensá-lo: a existência precede a essência e O existencialismo é um humanismo (l’existencialism c’est l’umanisme). A compreensão do pensamento sartriano é a indagação profundamente contida no homem, elencada dentre as questões que tocam o seu ser. É algo que nos abrange.

Assistindo aos grandes genocídios do século XX, não nos estranharia que alguém perguntasse onde está Deus diante de tamanhos horrores e como Ele poderia ser indiferente perante o grito de milhares de seus filhos. A pergunta “onde está Deus?” é uma pergunta filosófica, mas a isto precede o anseio pela verdade. Há no questionamento sobre a existência de Deus um amparo (não posso omiti-lo) legitimamente racional e sincero daqueles que, mesmo não crendo, reconhecem a importância da figura divina e se sensibilizam com a dor dos que foram atingidos pelas calamidades até então vigentes.

Em toda essa noção de conhecimento do homem sobre as realidades com a qual dialoga e aquelas com a qual foi forjado a enquadrar-se (o essencial não é o que se fez do homem mas o que ele faz com o que fizeram dele), Sartre retoma a questão da existência de Deus para critica-la mediante o que tivera se sucedido no mundo e mediante a noção de liberdade, um dos pontos-chave de seu pensamento. Assim, ao afirmar que o existencialismo é um humanismo, não apenas destorce o conceito de humanismo, mas o faz aniquilar a visão de Deus. Escreve:

O existencialista não pensará também que o homem pode encontrar auxílio num sinal dado sobre a terra, e que o há de orientar; porque pensa que o homem decifra ele mesmo esse sinal como lhe aprouver. Pensa, portanto, que o homem, sem qualquer apoio e sem qualquer auxílio, está condenado a cada instante a inventar o homem (Sartre, O existencialismo é um humanismo, Coleção Os Pensadores, p. 9).

Reinventar-se a cada instante é o que concebia com relação a noção de homem e de humanismo, fugindo de qualquer padrão moral ou de ditames que a própria consciência naturalmente encarrega ao indivíduo. Não há, portanto, espaço para Deus no existencialismo sartriano, porque Deus seria a simples ideia “barradora”, isto é, um limite à liberdade e ao ato volitivo do agente humano.

Em 2010, quando lançou a sua Encíclica Caritas in Veritate, o Papa Bento XVI chamou ao centro do tema e, de forma sutil e cortês – como lhe é de caráter –, emitiu um juízo filosófico justamente tratando dos problemas que ainda hoje aferram o cenário mundial. Discretamente deixou uma mensagem quase nada compreendida e, a meu ver, sequer analisada com prudência pela filosofia: “O humanismo sem Deus é um humanismo desumano”, escreveu o Pontífice. Como compreender essa assertiva? Justamente em viés contrário ao que propagara o existencialismo ateu. Excluir Deus do pensamento humanista é esvaziar o homem de qualquer fundo de esperança porque concebe-se este mundo como mapa dramático de misérias e sofrimentos.

Conceber Deus seria de certa maneira o extravio da sensatez, a subtração da liberdade. Um ser que nessa vida passa para ser robotizado pela ideia de superioridade divina ditadora do que se deve fazer e quando amparado nessa “paixão” (Deus), não é atendido por ele diante dos horrores dos semelhantes. Quem pode conceber tal divindade? Mas se essa divindade não existe, logo não existem padrões, não se podem haver imposições que legitimem comportamentos. Ou seja, “somos nós e nós mesmos”, assim é o pensamento existencialista que atravanca o progresso do “ser”, retendo-o somente ao reduzido “eu”.

A crítica ao existencialismo ateu não está apenas contida às fronteiras da filosofia, mas estende suas raízes também ao aspecto teológico – que por motivos práticos não adentraremos agora com tamanha propriedade. Apenas desejo elucidar que tal corrente de pensamento criou uma instabilidade também ao homem da fé, já desprendido da base teológica e, portanto, necessitado de permanente inovação para incrementar quanto fora perdido. Chamando a atenção ao existencialismo desprovido de qualquer dimensão transcendental, Bento XVI quer exprobar qualquer tendência a desumanização do humano, ao esquecimento do homem como ser de necessidades realmente importantes além da pura imanência.