O problema da justiça: uma leitura a partir de Aristóteles

Em tempos de Lava-jato, nunca é demais tratar desse tema. Extrai-o do meu Trabalho de Conclusão de Curso. 

Torna-se sempre mais desafiador tratar da questão justiça, que encontra o seu ápice na relação indispensável a ser mantida com a verdade. Uma detalhada leitura dos pressupostos realísticos poderia fazer tender o nosso pensamento a que no mundo, diante da barbárie e das atrocidades inumeráveis e dos escândalos de corrupção, já não haja justiça que possa conter ou solucionar dilemas tão pertinentes. Antes de analisarmos a solução de Santo Tomás de Aquino para o problema da justiça, gostaria de talhar superficialmente a transmutação do termo no ciclo histórico, diante de Aristóteles e dos filósofos posteriores. O sentido em si parece ter-se perdido, mas a sua aplicabilidade certamente foi distorcida a parâmetros nada justos.

Aristóteles foi o primeiro a tratar diretamente da justiça, dando-lhes um conceito e um termo. Sua definição é igualmente tomada por Aquino ao aplica-la como virtude ética. Ela é a responsável por manter a “justa medida” diante das escolhas do homem, para que não tenda a nenhum extremo. Assim, por exemplo, o homem que come demais é um glutão, mas o que não come é suicida. Mais uma vez a Bíblia parece tecer sendas da filosofia aristotélica quando na parábola do rico epulão e do pobre Lázaro. Aquele comia avidamente, enquanto este nada tinha a comer (cf. Mt 16,19-31). Aquilo que obviamente a Escritura chama de “caridade”, a filosofia chama de justiça.

O antigo filósofo grego sustentava que estas virtudes eram adquiridas por uma série de atos sucessivos, chamados por ele de hábitos. Os hábitos são delimitadores de virtudes; o homem virtuoso é aquele que por suas ações destina-se ao fim último, a felicidade. Todo homem é chamado a felicidade; ela não é privilégio para alguns, mas só os que de fato se aperfeiçoarem neste âmbito encontrá-la-ão. O ser humano não pode ser negado enquanto ser de necessidades, carências e frustrações, também não pode reduzir-se a uma realidade de vida fugaz, vazia ou ainda de forma somente sensitiva. Desde a filosofia helênica, esta realidade pareceu desvelar uma novidade perturbadora: o homem surge como alguém para um fim último, não é reduzido apenas a realidade imanente; para Aristóteles, a filosofia; para Aquino, Deus. O filósofo grego quase que prefigura o anseio cristão da valorização da alma. Posteriormente, Plotino trabalhou esse conceito tomando-o como uma união do supremo Pensamento com o supremo Pensado, denominado espírito (nous).

Platão concebe as virtudes como preexistentes na alma, portanto inatas. Não seria possível concebê-las posteriormente, mas o hábito ajudaria tão somente a orientá-las; em certo sentido seria algo ontologicamente pronto. Na sua obra Fredro, em todo o seu corpus filosófico, a concepção de corpo (soma) é tomada com certa redutibilidade, apenas como local de aprisionamento (sema) da alma (psiché). Avicena, por outro lado, concebia a virtude como totalmente fora do homem, dando toda atribuição ao hábito, que as cria, desenvolve e sustenta, sem este o homem poderia perdê-las do seu horizonte.

Há, nestes tempos, uma “ferida ética” naqueles que em nome de um determinado fim usam-se de meios antiéticos e imorais para sustentar a injustiça. Neste aspecto, me parece sempre mais presente o pensamento platônico do homem desencontrado da perfeição original no qual foi concebido. É certo que o Estagirita não era cristão, até porque em sua época sequer tinha-se essa noção de Deus. Não obstante, é indubitável que a flamância do seu prospecto hierárquico de valores, costeando as virtudes radicais humanas, tem como última meta diante das ações justas a nossa noção divina. Sua concepção de justiça é soberanamente racional e pautada na realidade sensitiva:

“Cada homem julga bem as coisas que conhece, e desses assuntos ele é bom juiz. Assim, o homem instruído a respeito de um assunto é bom juiz nesse assunto, e o homem que recebeu instrução em todas as coisas é bom juiz em geral”.

O que é o Homem?

Como começar a falar do Homem? Esta é a primeira interrogação que nasce do nosso desejo de conhecer, mergulhar neste mistério do qual fazemos parte e, muitas vezes, desconhecido de nós mesmos. Não é uma resposta fácil e imediata a que se pode apresentar nestas páginas. Meditar sobre o homem é permitir dar voz ao pensamento diante dos diversos aspectos que constituem a grandeza de pessoa. Vivemos um verdadeiro complexo de definições antropológicas e desconhecemos soluções para problemas ainda não abarcados. Quantas são as formas de vê-lo como aquele que pode redimir a si mesmo. Existem ideias que quanto mais estudadas, mais difíceis parecem ser. Pouco a pouco surgem ilhas nas quais somente se podem defrontar o meu pensamento e a minha forma de ver e compreender as coisas. Torna-se, assim, uma resposta jamais compreendida, presa nas grades da manipulação intelectual.

Agora, contudo, não quero tratar de qualquer definição antropológica, seja ela teológica, sociológica ou mesmo filosófica. Desejo que levantemos os olhos e os fixemos naquela definição meditativa, espiritual; um pensamento ao homem do nosso tempo inserido em situações divergentes. Para começar a compreender este sentido mais urgente da hodierna realidade, devemos refletir sobre esta que é a primeira criatura na ordem da criação em grau de importância. Talvez, em sua totalidade, nenhum desses conceitos possa, de fato, ser entendido. Séculos sobre livros, orações e discussões não foram capazes de direcionar tantas perguntas e incertezas. Cada vez que falamos do homem nos confrontamos com uma gama de problemáticas e possibilidades, traímos a própria consciência tentando criar definições onde a beleza das palavras não pode suprir a inquietação do intelecto e do coração. Contentemo-nos!

Mas, se uma exata definição para Homem não encontra aqui posto preciso, as possibilidades de meditação sobre suas composições parecem galgar campos maiores. As tentativas quase sempre são regadas de oscilações, aproximações, justificativas, ideias latentes de uma inquietação interna e externa. O empreendimento esforçado de se transitar entre filósofos e teólogos pode não expressar bem o nosso real desejo de conhecer-nos. E assim, havendo uma “lista” de associações, diria que a primeira é a de ser inquietante. Por nunca estar contente com seu estado ou situação, busca infatigavelmente a plena realização, persistindo por encontra-la já neste mundo.

Tal inquietação parte primariamente da sua natureza. É próprio do homem se inquietar pelo que deseja. A psicologia traça uma linha de mão dupla entre o objeto desejante e o objeto de desejo. Nunca pode estar satisfeito quem tem e deseja ter mais; vive para acumular e acumular, procrastinando momentos decisivos no itinerário do seu descobrimento. Depois, esse desejo que emana torrencialmente, brota de uma certeza futura, uma elucubração que a autoajuda aperfeiçoou com o seu lema: pense positivo que acontece. Não apenas é grande a escala de inverdade aqui contida, é também uma fuga da realidade submetendo-a ao pensamento humano. Certo, o que o homem pensa pode acontecer; não obstante, nem tudo o que acontece é pensado.

Em tudo isso não se apresenta uma categoria de mistério? Sua definição parece caber entre os atributos do homem. Mysterion, do grego, tem relação com o ato de calar a boca (myein: fechar, calar; mystes: que guarda segredo, que se fecha). Balburdias e murmúrios ganharam os padrões sociais e adentraram avassaladoramente os corações. Existe uma submissão improdutiva e desorganizada no desejo de falar sempre e nunca escutar. Fala-se demais e se ouve menos, evitando desencadear conflito pertinente consigo. O silêncio é doloroso, atroz, e grita; sim, permite sentir o grito lancinante que irrompe do mais profundo existir.

Em contrapartida, o que quer dizer, para mim, ser pessoa? Como vivo a relação com os outros? Como supero o conflito entre os meus interesses pessoais e o bem de todos? Não se pode silenciar plenamente diante desses questionamentos e não falar daquele que nos oferece um conceito preciso do que é o homem: Jesus. Ele intensifica a ideia de humanidade, retirando o costume antigo da obsessão pelas leis acima da dignidade e do valor inviolável de cada um. Em Cristo, o novo significado do homem torna indissociável o seu compromisso diante do outro. A parábola do Juízo final matura a nossa consciência nesse viés: o que fizestes a um destes pequeninos, a mim o fizestes (Mt 25,40). A relação com Deus é o estabelecimento de um diálogo com o próximo; este, por sua vez, retrato da pequenez e do cuidado divino.

A crise de identidade facilmente nos induziu ao racionamento de ideias ou ao extravio da sensatez com que está pautada a lei natural regente. Caídos na contradição, marcamos o nosso desenrolar com sendas de antagonismos que nos precipitam contra nossa definição primígena. Talvez o meu nada procure um subterfúgio para encontrar-se com o Tudo, um instante que permita somente brevíssima troca de olhares, sem nada dizer. Permaneço rendido a sua forma de encontro. Meu pensamento se volta imediatamente ao narrado por Mateus sobre os Magos do Oriente e aquilo que, não narrado, permanece nas entrelinhas. Homens, vindos de lugares tão distantes, buscavam o rosto de Deus feito recém-nascido; um menino que entra com traço e natureza divina na história, sem, porém, espargir seus raios de glória e esplendor; conservou-se humilde sob os aspectos físicos. A grosso modo, os magos nada mais adoravam que um ser humano; os judeus diriam estar blasfemando por fazerem de um humano deus (cf. Mt 2,11). A ousadia daqueles homens do Oriente determina o tamanho de sua fé.

O salmista leva a termo uma das definições de desejo que a criatura quer incessantemente para si. Há tantos que desejam uma boa posição econômica, um eficaz progresso financeiro, uma família saudável, altos postos de emprego, o grande dom da oratório. “É a tua face Senhor que eu procuro”, responde o autor sagrado ao seu coração que diz: “Busque minha face!” (Sl 27, 8). Os magos o fizeram, e nós? Na resposta da criatura ao Criador, seria notório o uso do verbo possessivo para falar do coração como loco da face de Deus. Não diz ele na segunda pessoa do singular, senão que na primeira. Como se quisesse dizer-nos: “é no meu coração que está impressa a face de Deus; Ele não me conduz para fora de mim. Leva-me para dentro, de tal forma que a minha conversão interior produza eficácia externa”. Remeter-nos-á a Santo Agostinho, que em ocasião da sua conversão, afirmou: “Eis que estavas dentro e eu fora!”.

Os holofotes da mídia e do exagerado personalismo, embora ofuscassem o brilho da relação homem-Deus, não o puderam tolher da sua essência. A impressão do rosto divino no coração da sua mais bela criatura é o registro que não nos permite privar da identidade que levamos conosco, ela nos faz descobrir nos presentes relacionamentos o gérmen de eternidade implantado em nossa alma e trazido conosco já antes da concepção. Ela nos faz saber que se já podemos buscá-Lo fora é porque primeiro está dentro. Jesus, tu és a nossa identidade; tu és a minha identidade!

Revelação e Sagrada Escritura na vida da Igreja

Desde os tempos remotos, a Igreja procurou alicerçar-se sobre o tripé que constitui o fundamento da sua doutrina e a fonte de todo acontecimento cristão: a Revelação, a Tradição e o Magistério. Assim, ela não se funda unicamente sobre um destes aspectos, mas congrega os três de tal forma que se efetue cotidianamente o singular motivo que a faz notória pelo mistério que nela torna-se possível vislumbrar. Por isso, portadora da Boa Nova, o mistério do acontecimento pascal pode inserir-se na dimensão de uma Igreja que ora comunitariamente e continuamente, não se isolando em dimensões subjetivistas ou autossuficientes. Reconhece-se dependente da forma salvífica de Cristo sem a qual nada ela é. Continuar lendo