O homem prisioneiro de si

O século XX ficou conhecido como o período das ditaduras mais repressivas e desumanas da história. De um lado os nazistas com a sua fábrica de horrores na Alemanha, invadindo os países no intuito de unificar todas as nações sob um regime. Com a ideológica raça ariana, eliminou judeus (6 milhões de mortos), homossexuais, negros, deficientes. Os campos de concentração tornaram-se o cenário da vergonha sobre até onde pode chegar o ser humano. A maldade humana viu-se escancarada em todo o seu potencial. Do outro a Rússia, fincada no comunismo, devastando países e mais países, posteriormente invadiu também a Europa com um projeto mais pacífico que os nazistas, mas instalando sorrateiramente a falta de fé e o totalitarismo. Sobre o número de mortos, fala-se mais ou menos de 100 milhões, segundo O livro negro do comunismo. A promessa de esperança dos comunistas naufragou quando tirou Deus do seu horizonte e no lugar colocou a luta pelo homem como única resposta aos anseios da existência. Os europeus logo lembraram-se de suas origens e ressuscitaram entre si o ideal primeiro que durante séculos moveu a história e a cultura do seu continente.

A grande questão não são os regimes precedentes, que tanto retalharam a dignidade do ser humano. Após essas ferrenhas ditaduras que mataram os homens do passado, estão as que matam os homens do presente, não mais com o cenário desolador dos campos de concentração, senão com a ideia da autossuficiência que pretende fazer o homem impor-se como senhor de si, estatuindo claros limites entre o bem e o mal, denegrindo a sua condição de ser. A raiz dos males de hoje não foram surgimentos repentinos, provindos do nada, mas a consecução de fatores que eclodiram na presente construção do pensamento pós-moderno (modernidade liquida). É sobretudo entre os religiosos, educadores (de modo particular, nós professores), pais, que se inicia o processo de desconstrução ou de não-aderência a essa posição.

A ditadura vigente em nosso tempo, deliberadamente, chama-se individualismo ou autossuficiência. Chamamo-la assim porque tem a pretensão de confinar o homem em suas próprias forças, reduzindo-o a esse potencial de intelecção e ação que não é capaz de alçar longos voos além do seu círculo social e político. Toda corrente ideológica de isolamento do homem é em si um processo de autodestruição, de ruptura, de perda do rumo, o verdadeiro retrocesso que não compreende a possibilidade do diálogo e do crescimento, o confinamento em um mundo psicológico, longe de toda possível convivência com o mundo real. Sim, não podemos negar que em grande parte o impulso desse isolamento foi dado a influência causada pelos meios de comunicação, que estabeleceu uma barreira entre o idealismo e o real, levando-nos a pessoas capazes de sonhar muito, mas de nada fazer para que o sonho ganhe dimensões concretas.

Somos, portanto, prisioneiros de uma ditadura mais daninha porque não é uma força externa que se impõe ao interno, mas internamente já nos fizemos cativos de uma condição fraca, débil e vulnerável a qualquer forma de pensamento. A antiga competição por quem lia mais livros ou produzia mais obras, ganhou nova roupagem na futilidade das competições por quem tem o corpo mais escultural ou a melhor academia ou a melhor roupa… Resta pensar já não existir mais o sentido real do homem. Aquele desejo incontido que Schopenhauer fala em sua obra O mundo como vontade e como representação parece cada dia mais latente.

A conquista da independência é necessária, mas independência não é sinônimo de individualismo, autossuficiência ou isolamento. Saber-se independente é usar de uma autonomia responsável e respeitável, pensando no bem dos que nos circundam e nos direitos e deveres dos quais a consciência nos encarrega. Segundo afirmava o Cardeal John Newman: “A consciência tem direitos, porque tem deveres” (A Letter Addressed to His Grace the Duke of Norfolk: Certain Dificulties Felt by Anglicans in Catholic Teaching. Uniform Edition: Longman, Grenn and Company, London, 1868-1881, vol. 2, p. 250). Alguns critérios modernos propõem em novo modo a relação da liberdade com a consciência moral, com a natureza humana e a consciência. Tal relação vê-se pautada em critérios que pressionam uma inserção forçosa aos “padrões” culturais e sociais, tão frequentemente nomeados como “moda”, “estilo”, “do momento”.

Fica o convite a não nos contentarmos ao pensamento massivo da mídia, nos lançando na desafiadora e necessária busca acerca do homem e do seu papel fundamental na sociedade. O espaço ideal é a consciência, ampliando-a aos locais de convivência e socialização: escolas, igrejas, trabalhos, residências. Retirar-se do isolamento para compor o cenário da Pólis, segundo Aristóteles, o espaço fundamental para exercer o seu papel e tornar-se ser de virtudes.

Bom final de semana!