Solenidade do Natal 2017

presepio4A Solenidade do Natal é sempre tempo oportuno para reavivarmos a certeza do amor de Deus, capaz de despojar-se de Si mesmo para entrar no dinamismo da história. Essa se constitui sempre de forma mais pertinente quando pensamos no cenário desenrolado em nosso tempo, desafiando-nos à cegueira da fé, criando um ambiente de falsa comodidade, onde prevalece em última instância o querer do homem e sua mentalidade ambivalente. A graça de Deus não nos abandona, dá-nos a certeza dessa festa: Deus é sempre conosco! Sua força se “manifesta” na fraqueza de um recém-nascido, e assim a fragilidade confronta a soberba humana em toda sua força. Diante do imediatismo para as coisas presentes, já não se concebe um tempo próprio para Deus; a metodologia do nosso pensamento nos lançou ao pragmatismo de tempos anti-históricos e abstratos.

A dimensão natural do Natal fala-nos ainda sobre a realidade sensível da humanização do poder divino. Se diz que neste mundo existe ausência de humanismo, somos mais distantes que próximos; as relações tornaram-se puramente formalismos éticos, assim, tudo o mais nelas se perde. Essa mentalidade não é tangente apenas ao contato humano, também a relação divina. Temos liquefeito tudo o que antes era sólido. Ao Natal associou-se, para além da fé – seu aspecto primordial –, o oportunismo de reduzi-la a conceitos limitados, traços puramente sociais que rompem a dinâmica da Revelação divina. Não se concebe mais possível a relação entre Deus e o homem, senão como reduto ideológico no qual Ele limita a forma de agir pela imposição de preceitos morais rígidos. Deus não é mais a essência do pensamento humano, mas o seu grande inimigo, Aquele que pode constranger a liberdade.

O sentido de liberdade prevalece na leitura de Isaías, ouvida nesta noite santa. O profeta a ela alude como desejo próprio de todos os homens, sobretudo aqueles que choravam o fardo da escravidão no exílio da Assíria. O povo com o qual Deus estabelece uma aliança, que se via eleito e abençoado, foi duramente provado. A nação escolhida pelo Senhor, não parecia ser mais eleita. E o que faz Israel por primeiro para perder a liberdade e ser reduzida a condições inumanas? A resposta à fé do povo pelo Senhor era essa?

Um sinal profundo para nós e o nosso tempo se pode encontrar nesse cenário envolto em sombras: aquele povo nunca perdera a confiança em Deus. Mesmo se marchassem os calçados ruidosos dos soldados, ainda que as vestes estivessem sujas de sangue, tudo isso não esfacelava a fé. Esses são os verdadeiros eleitos de Deus: jamais lhes será tirada a liberdade como anseio expressivo da existência; jamais perderão a fé, porque essa não se funda sobre pilares terrenos, mas suas colunas, fincadas nessa terra, elevam-se à presença do Senhor da vida. O homem que confia em Deus sabe que os seus critérios não o colocam em posição de juiz pleno, independente de toda responsabilidade de consciência e dimensão natural. Por sua vez, tal mentalidade condiciona-o a escravidão do vazio, tomado pelo nada.

Não podemos, contudo, nos contentar com o pseudo conceito de paz, criador de ojeriza e aberto a acolher em si todo tipo de pensamento de forma indiferente, como se isso expressasse a normal realidade por nós almejada. A paz é ambivalente e traz sérios conflitos como, em certo ponto, a necessidade de distinguir entre o que é apto a estar nela ou não. Somente se reconduzir-se ao caminho de Deus, pode redescobrir a verdadeira paz, pode reencontrar-se consigo e estabelecer sinais de paz com os d3348emais. Esse é certamente um dos fatores para a sua ainda não instauração plena.

A festa do Natal encaminha-nos para Belém. Nesta noite, porém, Belém não é somente o local concreto para o qual nossos olhos se voltam no desejo que ali seja definitivamente estabelecida a paz. Hoje, Belém é também o coração de cada homem, chamado a olhar para dentro de si e promover um novo encontro consigo; é o lugar da superação do racionalismo e da falta de esperança. É o coração do homem que já não encontra Deus externamente porque está tomado pelo imediatismo e pela falta de tempo, tendo coisas pretensamente mais emergenciais a serem feitas. Para esses, a mensagem do anjo torna-se sinal de conforto ao saberem que dentro de si ainda há um rastro de Deus, o sinal que jamais se extinguirá, o elo que não desvencilhará. A cidade de Davi carrega agora multíplice significado: é a casa do pão – este agora descido do céu – e é o marco no encontro do homem com a história e a cultura. Há quem pretenda definir a história apenas como sucessão de atos gerados pela mutabilidade do tempo. Talvez para um historiador isso seja mais convencional e cômodo. Contudo, na história deve ser levada em conta uma abertura ao divino que somente se pode descobrir reencontrando o real significado. O homem sabe que não é produto do acaso, mas fruto da generosa misericórdia que cativa e convida. Belém é convite e atitude, vemo-lo nos pastores. O convite das criaturas celestes transforma-se, para aqueles homens, em oportunidade singular de contemplarem por primeiro a ação dinâmica da Revelação de Deus em meio a seu povo: a história se abre ao transcendente. “Vamos a Belém, para ver o que aconteceu, segundo o Senhor nos comunicou” (Lc 2, 15).  O cristão torna-se também pastor peregrinando apressadamente a Belém quando levanta-se da mesquinhez e da prepotência, do coração endurecido ao grito do próximo, dos murmúrios, e caminha. Assim é que se cumprem as passagens proféticas; mais que isso, assim é que se pode tocar o Menino agora dado a nós na Eucaristia, alimento da nossa debilidade em fatigante percurso. Ele nos escolheu e erigiu para nós verdadeiros recantos de paz.

Nesta hora devemos rezar ao Senhor para que mostre ao mundo a verdadeira paz que nasce na vitória do bem sobre o mal. Rezemos pelos lugares onde ainda ela não manifestou sua face, em particular o Oriente Médio. Que os esforços comuns não sejam inúteis. Mostra-nos o caminho da paz, chama-nos pelo nome, sinal da nossa identidade e expressão do vosso amor.

Belém é referência ao encontro de culturas através do desejo comum pela verdade, ou da curiosidade que move alguns sábios. É lá que os magos do Oriente e os simples pastores encontram o recém-nascido proveniente da sabedoria de Deus, que vem refrear o pecado e instaurar no mundo o desejo pela verdade e pela paz. Numa das antífonas das oitavas do Natal, assim a liturgia nos faz recitar memorando o livro da Sabedoria: “Enquanto um profundo silêncio envolvia o universo e a noite ia no meio do seu curso, desceu do céu, ó Deus, do seu trono real, a vossa palavra onipotente (Sb 18,14s)” (Antífona do dia 30 de dezembro). A gruta de Belém é o local onde as culturas encontram a Verdade de Deus tão esperada e prenunciada. Mas esse encontro não causa uma subversão do sentido próprio de cultura? Certamente, se cada um ali fosse para impor suas próprias convicções. A cultura não se encaminha e não converge para si, ela não é autossuficiente ou exclusivista; toda cultura abre-se ao desejo da verdade e só através dessa abertura se dá a interculturalidade e o diálogo cultural. Também a fé expressa-se como cultura, conduzindo homens e mulheres ao caminho divino. Hoje, difusas correntes de pensamento afirmam que somente libertando o mundo das religiões se pode haver verdadeira paz e que mormente o monoteísmo, em sua naturalidade, seria prepotência, causa de intolerância e violência. Sabemos, é verdade, que na história houveram momentos em que a religião foi usada como artifício para conflitos bélicos e intolerâncias. É verdade que isso se deu pela pretensa ideia de difundir o nome de Deus às custas de ceifeiros da liberdade. Mas assim como esta, o “não” a Deus nunca pode ser fator considerado para restabelecer a paz. O antropocentrismo exacerbado, dolorosamente, ofereceu ao mundo as guerras mais cruciais, em nome da verdade, que não está na violência.

É óbvio que a verdade não se impõe com a categoria racionalista cega e pretensiosa. Se ela não é uma abertura libertadora para o homem, em si mesma já é um peso. A verdade garante alcançar a realidade mais plena e funcional do existir. Há os que, por sua vez, não se deixam plasmar por essa percepção profunda trazida consigo. Esses a veem num prisma caducante, traduzida por conjuntos de preceitos morais nada mais transmitindo a não ser a hegemonia sobre a “imperfeição” natural. Que o Menino de Belém alargue o nosso coração para a novidade de Deus e nos conduza ao movimento salutar do amor, de corações capazes de permanecerem abertos a Maria e José.

Solenidade do Natal do Senhor

Novamente o Natal nos põe diante de uma expressão significativa para a nossa fé: a humildade de Deus. No Menino que nos é anunciado nesta Noite Santa, encontra-se o supremo sinal de humildade que inquieta o coração e renova o convite insistente de deixar-nos tocar por esta mesma simplicidade. Novamente somos também reconduzidos ao dramático cenário de Belém, da situação de Maria e José, da presença dos pastores e do coro angélico que entoa o hino de louvor pelo anúncio tão esperando. Este mesmo anúncio não cessou naquela noite fria, mas ultrapassou os limites da história, atingindo homens e mulheres que se permitiram alcançar pela Palavra.

Outra vez nos encontramos diante da figura frágil de um bebezinho, da indefesa manifestação de um recém-nascido que em sua pobreza transmite-nos muito mais do que podemos intuir. Belém não é um sinal incomum se pensado nas realidades que circundam a humanidade ferida pelo egoísmo e pela indiferença. Ao contrário, vemos o cenário multiplicar-se rapidamente, alcançando mesmo os ambientes ditos globalizados. Isso nos remete à importante realidade do isolamento no qual está o homem da pós-modernidade, vilipendiando a relação de fraternidade e a natureza de filho de Deus. Natal é a festa da filiação divina, da adoção filial. Em Jesus Cristo, podemos chamar Deus de “Pai”; pedimo-lo não como criaturas quaisquer. Nossa condição foi elevada pela descida do Salvador. Entrando no mundo, assume a fragilidade e dá a ela novo significado. Precisamente nesta relação de purificação, encontram sentido as palavras de São Paulo pronunciadas na segunda leitura: “Ele se entregou por nós, para nos resgatar de toda maldade e purificar para si um povo que lhe pertença e que se dedique a praticar o bem” (Tt 2,14). Interrogar-nos-emos: temos praticado o bem como quesito fundamental da nossa identidade divina? Acaso não deixamos que os sinais de devastação e morte superassem a fecundidade da vida radicada na mensagem evangélica? Não temos convivido em nosso mundo esquecendo os largos horizontes para os quais deve convergir a nossa atenção?

Ao tempo em que avança a consciência pela “globalização da solidariedade”, incentivada pelos últimos Papas, sentimos o peso desafiador de outra forma de globalização que tem disseminado sinais destrutivos, inibido a fecundidade da paz e da justiça: a globalização da indiferença. De fato, devemos recordar-nos sempre que “a globalização torna-nos vizinhos, mas não nos faz irmãos” (Caritas in Veritate, 19). Esta elementar característica só poderá ser descoberta se nos permitirmos tocar pela sensibilidade mística de Deus. No Menino que hoje nasce em Belém, não há espaço para os não-atentos às necessidades do momento presente, permanecendo reticentes diante da dor alheia; não há espaço para os aniquiladores da paz e incitadores do ódio. Estes não podem entrar no estábulo para adorar o mistério grandioso porque permanecem com as portas fechadas e o coração indiferente. Sentimos novamente ressoar o versículo apocalíptico no qual se reconhece a plena faculdade da nossa liberdade: “Eis que estou à porta, e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele e ele comigo” (Ap 3,20).

A composição de uma sociedade centrada na autonomia humana fez com que fossem fechadas as portas para Deus. Ele não é mais prioridade, não conta entre as necessidades básicas para a vida. Às mentes ditas “intelectuais”, Deus se tornou um problema que, longe de ser investigado e conhecido, foi esquecido, subtraído às instâncias extras. Nesta hora, contudo, fazemos do nosso hoje o hoje de Belém, e rezamos: Senhor, Deus da simplicidade, da pobreza e da fragilidade, demonstra ao mundo a tua força salvadora. Toca os corações gélidos e fechados diante do clamor dos que nos cercam; retira-nos do comodismo que causa insensibilidade. Queremos dirigir-nos ao teu encontro para que Tu, como fizeste em Belém, nasça uma vez mais em nossos corações e aqueça a nossa existência com o calor do amor.

A liturgia da Igreja sabiamente associa os versículos de Isaías com o acontecimento de Belém. O profeta narra a situação conflituosa do seu tempo com palavras pesadas e, até certo ponto, evidenciando o contexto realístico no tempo de Jesus. As botas de tropa de assalto, os trajes manchados de sangue, o cenário bélico, falam muito onde já não reinam paz e esperança. Acrescenta, entretanto, de forma consoladora: “tudo será queimado e devorado pelas chamas” (cf. Is 9,4). Quando o homem já não é mais capaz de elevar os olhos ao céu, de reconhecer o seu lugar no plano da criação e adorar a majestosa grandeza de Deus, não pode ter esperança; torna-se infértil.

Colocando-se como supremo artífice do novo tempo, ignora as referências àquele que pode destinar-nos para horizontes de serenidade. Sobre Ele, Isaías afirma ser o seu nome “conselheiro admirável, Deus forte, Pai dos tempos futuros, Príncipe da paz”, e ainda: “a paz não há de ter fim sobre o trono de Davi e o seu reinado” (v. 5-6). Em todos os cantos vemos a proliferação da guerra conduzir inúmeros inocentes ao derramamento de sangue. Envergonhece-nos a unificação de nações empenhadas em erradicar a violência com mais violência, expostas aos níveis mais brutais, pretendendo impor falsamente um conceito de paz. Lembramo-nos ainda dos instrumentalizadores da paz, quer no artificio político, quer na violação da dignidade humana. A promessa de Deus parece ter falhado e o seu nome incita a violência.

Para os homens dos tempos pré-cristãos, Belém os conduziria a uma nova dimensão divina que desconheciam em seu período histórico, uma consolante certeza: Deus é bom; Ele é a verdadeira paz! Nele está a esperança que não vacila ou decepciona. Sua natureza é desvelada colocando-se em direto contato conosco, não havendo mais necessidade de intermediações e sinais. Esta mesma comunicação é dita já pelos anjos na noite santa de Belém: “Hoje na cidade de Davi nasceu para vós o Salvador, que é Cristo Senhor” (Lc 2,11).

Os pastores não hesitaram, tomando imediatamente a estrada que os conduziria ao recém-nascido. Com eles, percorramos interiormente este caminho que nos direcionará ao mesmo cenário e elevemos uma prece por aqueles que devem viver o Natal na pobreza, no sofrimento, no exílio da pátria. Pedimos pelos subjugados ao exílio de si mesmos, vivendo no isolamento a novidade que renova o gênero humano. Que o Senhor nos toque com sua paz, dada a nós por meio de Seu Filho e anunciada pela boca dos anjos. Que o fogo purificador queime toda maldade, todo espírito de violência e desamor. Amém.

 

I Domingo do Advento – A compreensão escatológica do amor

(I Leitura: Is 2,1-5      II Leitura: Rm 13,11-14a      Evangelho: Mt 24,37-44)

Com o início do ano litúrgico A, ano de São Mateus, a Igreja nos insere novamente na celebração do tempo do Advento, estimulando-nos a compreensão divina do mistério da primeira vinda de Cristo sem deixarmos de meditar sobre a segunda, que se dará na dimensão escatológica, onde poderemos contemplar a face de Deus incessantemente conforme enuncia o salmista: “Que alegria quando me disseram: ‘Vamos à casa do Senhor! ’” (Sl 121). Jerusalém é transposta e assumida aqui na simbologia de casa: a eternidade. Lá é o local da verdadeira morada dos que peregrinam neste mundo esperando conforto e paz em Deus. A cidade santa que detinha grande parte das peregrinações e do destino dos transeuntes era o fulcro da comunidade hebraica na época de Jesus e ainda hoje. Ali estava o santo dos santos, no templo – posteriormente destruído, restando apenas duas de suas paredes ocidentais, Muro das Lamentações; lá estava o monte das Oliveiras, onde situava-se um cemitério, local sagrado aos judeus; o centro do judaísmo estabeleceu-se ali porque dali emanava a palavra do Senhor (cf. Is 2,3). Enfim, dentre tantas coisas, era marcada como sinal da paz, o lugar de Deus, da serenidade, da alegria. Compreensível que por isso o salmista tivesse dito: “Se algum dia de ti eu me esquecer, Jerusalém, que resseque a minha destra e se prenda a minha língua ao céu da boca” (Sl 137,5-6).

Os salmos cantam a beleza deste centro da fé judaica com exatidão poética. Encontramos diversos escritos e poderíamos enumerá-los se isso não demandasse tempo, paciência do leitor e paciência do escritor. O Novo Testamento nos presenteou com um conceito mais expansivo de Jerusalém que não o da cidade santa. O autor da carta aos Hebreus escreveu: “Chegastes ao monte Sião, à Jerusalém celeste, à cidade do Deus vivo, ao coro de milhares e milhares de anjos, à assembleia festiva” (12,22) Existe uma cidade celeste para a qual todos caminhamos, onde nossos olhos poderão cessar as lagrimas porque a nossa boca dará risos e o coração será acalantado pela contemplação de Deus. Essa cidade não é utopia, forma lúdica de sustentar a fé dum grupo para não esmorecerem no percurso.

O ciclo do Advento que hoje começamos nos insere no mistério escatológico da fé, preparando-nos para a celebração do nascimento do Menino Deus. Neste tempo, oportunamente, mergulhamos naquele advento definitivo, marcado pela promessa da parusia. Não faria sentido, de fato, falarmos do Natal hoje sem que nossos corações se predispusessem a um preparo eficaz da segunda e definitiva vinda, na qual o Senhor nos chamará a Juízo para prestarmos-lhe conta de nossas ações em vida. Falar do Natal é consirderar o Cristo juiz que virá para completar a obra um dia começada pelo Pai. A parábola do juízo final nos faz compreender melhor esta visão, por vezes assustadora e punitiva (cf. Mt 25,31-46).

Na parede central da Capela Sistina encontra-se uma das mais famosas obras de Michelangelo e um dos mais conhecidos retratos da fé cristã: o Juízo final. O afresco é composto por cenas religiosas e mitológicas. Gostaria, contudo, de deter-me na figura do Cristo para que a maravilha dos detalhes não desfoque a nossa atenção. O Cristo que o artista nos faz ver é extremamente exótico daquele construído por nossa mentalidade. Uma figura robusta, musculosa, com um peso no olhar quase a deixar transparecer severidade inigualável. Sentado sobre a nuvem, ergue a mão exprimindo sua autoridade e determinação, afastando os pecadores ao mesmo tempo em que parece proteger a mãe temerosa, em posição vulnerável. Um cenário de susto e de terror.

Mas existe um sentido pelo qual crer que não nos intimide na obscuridade de um pensamento precipitado sobre esta cena mistagógica? Na figura do Cristo de Michelangelo parece estar sintetizada a emancipação daquele padrão icônico e misericordioso. Talvez devêssemos perguntar-nos: não está em tudo isso algo mais do que uma expressão da “ira” de Deus pelos pecados? Diria por detrás de tudo estar o amor. Somente ele pode mover-nos apaixonadamente em direção ao que virá exercer sua função de Senhor da história. A compreensão do amor de Deus é o ato do seu deslocamento da eternidade na direção do homem. Saindo da inacessibilidade, o Senhor aperfeiçoa, ou melhor, muda radicalmente o conceito de “deus”; aclara, por assim dizer, o exercício do movimento interno que cada ser humano é chamado a cumprir até a meta divina. Relação recíproca: Deus vem ao homem, o homem vai a Deus; perfeito e imperfeito entrelaçaram-se favorecendo a purificação autêntica, não recriminativa de diferenças biológicas ou sociais, encerrando todos no seu amor.

Vigilância é a outra palavra que sussurrará em nossos ouvidos durante estes quase 30 dias. Mateus em seu evangelho coloca na boca de Jesus a sua comparação com Noé. “A vinda do Filho do Homem será como no tempo de Noé. Pois nos dias, antes do dilúvio, todos comiam e bebiam, casavam-se e davam-se em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca. E eles nada perceberam, até que veio o dilúvio e arrastou a todos” (Mt 24, 37-39).

Ainda no início da Escritura, encontramos a narrativa do dramático acontecimento do dilúvio. No tempo de Noé, Deus se sentira profundamente ferido pela depravação moral em que se encontrava o povo que tivera criado. Diz o texto que “A terra se corrompeu diante de Deus e se encheu de violência. Deus olhou para a terra: estava toda corrompida, pois toda carne se pervertera sobre a terra” (Gn 6,11-12). O pecado estava assinalado na primeira criação, consequência da decadente escolha de Adão e Eva. Todos conhecemos a história da “arca”, sabemos como veio a terminar. Já em nossa era, os Padres da Igreja associaram a figura da arca com a Igreja e o dilúvio com o batismo.

Nas páginas mudas, passamos a qualquer coisa que nos faz vibrar interiormente. Jesus Cristo anunciando a sua vida como o dilúvio, pretende advertir-nos para que não submerjamos como, outrora, submerjeram aqueles que negligenciaram o compromisso com Deus. A Noé não foi permitido que anunciasse nada, mas o novo Noé, Jesus, pode agora difundir o anúncio da salvação, conclamando os povos à conversão e estatuindo a sua “Arca” na figura da Igreja. Doravante, não mais serão os homens a perderem a vida, senão os nossos pecados a serem afundados nas águas batismais, preparando-nos para o novo tempo no qual dignifica-nos unicamente o título de “filhos de Deus” (1Jo 3,1).

Maria, Mulher da espera e da esperança, nos ajude a trilhar com proficuidade esta via que nos conduzirá novamente a Belém, local de onde emana para o mundo os raios da salvação e da paz. O convite hoje é profético: “Vinde todos da casa de Jacó e deixemo-nos guiar pelo Senhor” (Is 2,5).