VIA SACRA 2018

imagesCom grande alegria, apresento aos amigos leitores do site a Via Sacra 2018, com meditações e orações escritas por mim, além das orações extraídas de Cardeais e Papas. Percorreremos no presente ano os últimos instantes do Senhor através do seu desdobramento eclesiológico, ou seja, como a Via Crucis de Jesus torna-se também a Via Crucis da Igreja, que não se aparta das dores do Mestre, mas assume-as como sua.

O itinerário quaresmal é propício para revivermos os mistérios da salvação, mergulhados em Cristo e caminhando para a vida eterna.

Esse ano a novidade é a apresentação e aprovação do nosso Bispo diocesano, Dom José Ruy Gonçalves Lopes, OFMCap, que leu com grande zelo e acurado senso doutrinal e filosófico as reflexões por mim propostas.

Disponibilizo abaixo o texto meditativo e espero que o caro amigo possa fazer-se, também ele, peregrino nesse instante de dor e esperança.

via sacra 2018

Ian Farias

Solenidade do Natal 2017

presepio4A Solenidade do Natal é sempre tempo oportuno para reavivarmos a certeza do amor de Deus, capaz de despojar-se de Si mesmo para entrar no dinamismo da história. Essa se constitui sempre de forma mais pertinente quando pensamos no cenário desenrolado em nosso tempo, desafiando-nos à cegueira da fé, criando um ambiente de falsa comodidade, onde prevalece em última instância o querer do homem e sua mentalidade ambivalente. A graça de Deus não nos abandona, dá-nos a certeza dessa festa: Deus é sempre conosco! Sua força se “manifesta” na fraqueza de um recém-nascido, e assim a fragilidade confronta a soberba humana em toda sua força. Diante do imediatismo para as coisas presentes, já não se concebe um tempo próprio para Deus; a metodologia do nosso pensamento nos lançou ao pragmatismo de tempos anti-históricos e abstratos.

A dimensão natural do Natal fala-nos ainda sobre a realidade sensível da humanização do poder divino. Se diz que neste mundo existe ausência de humanismo, somos mais distantes que próximos; as relações tornaram-se puramente formalismos éticos, assim, tudo o mais nelas se perde. Essa mentalidade não é tangente apenas ao contato humano, também a relação divina. Temos liquefeito tudo o que antes era sólido. Ao Natal associou-se, para além da fé – seu aspecto primordial –, o oportunismo de reduzi-la a conceitos limitados, traços puramente sociais que rompem a dinâmica da Revelação divina. Não se concebe mais possível a relação entre Deus e o homem, senão como reduto ideológico no qual Ele limita a forma de agir pela imposição de preceitos morais rígidos. Deus não é mais a essência do pensamento humano, mas o seu grande inimigo, Aquele que pode constranger a liberdade.

O sentido de liberdade prevalece na leitura de Isaías, ouvida nesta noite santa. O profeta a ela alude como desejo próprio de todos os homens, sobretudo aqueles que choravam o fardo da escravidão no exílio da Assíria. O povo com o qual Deus estabelece uma aliança, que se via eleito e abençoado, foi duramente provado. A nação escolhida pelo Senhor, não parecia ser mais eleita. E o que faz Israel por primeiro para perder a liberdade e ser reduzida a condições inumanas? A resposta à fé do povo pelo Senhor era essa?

Um sinal profundo para nós e o nosso tempo se pode encontrar nesse cenário envolto em sombras: aquele povo nunca perdera a confiança em Deus. Mesmo se marchassem os calçados ruidosos dos soldados, ainda que as vestes estivessem sujas de sangue, tudo isso não esfacelava a fé. Esses são os verdadeiros eleitos de Deus: jamais lhes será tirada a liberdade como anseio expressivo da existência; jamais perderão a fé, porque essa não se funda sobre pilares terrenos, mas suas colunas, fincadas nessa terra, elevam-se à presença do Senhor da vida. O homem que confia em Deus sabe que os seus critérios não o colocam em posição de juiz pleno, independente de toda responsabilidade de consciência e dimensão natural. Por sua vez, tal mentalidade condiciona-o a escravidão do vazio, tomado pelo nada.

Não podemos, contudo, nos contentar com o pseudo conceito de paz, criador de ojeriza e aberto a acolher em si todo tipo de pensamento de forma indiferente, como se isso expressasse a normal realidade por nós almejada. A paz é ambivalente e traz sérios conflitos como, em certo ponto, a necessidade de distinguir entre o que é apto a estar nela ou não. Somente se reconduzir-se ao caminho de Deus, pode redescobrir a verdadeira paz, pode reencontrar-se consigo e estabelecer sinais de paz com os d3348emais. Esse é certamente um dos fatores para a sua ainda não instauração plena.

A festa do Natal encaminha-nos para Belém. Nesta noite, porém, Belém não é somente o local concreto para o qual nossos olhos se voltam no desejo que ali seja definitivamente estabelecida a paz. Hoje, Belém é também o coração de cada homem, chamado a olhar para dentro de si e promover um novo encontro consigo; é o lugar da superação do racionalismo e da falta de esperança. É o coração do homem que já não encontra Deus externamente porque está tomado pelo imediatismo e pela falta de tempo, tendo coisas pretensamente mais emergenciais a serem feitas. Para esses, a mensagem do anjo torna-se sinal de conforto ao saberem que dentro de si ainda há um rastro de Deus, o sinal que jamais se extinguirá, o elo que não desvencilhará. A cidade de Davi carrega agora multíplice significado: é a casa do pão – este agora descido do céu – e é o marco no encontro do homem com a história e a cultura. Há quem pretenda definir a história apenas como sucessão de atos gerados pela mutabilidade do tempo. Talvez para um historiador isso seja mais convencional e cômodo. Contudo, na história deve ser levada em conta uma abertura ao divino que somente se pode descobrir reencontrando o real significado. O homem sabe que não é produto do acaso, mas fruto da generosa misericórdia que cativa e convida. Belém é convite e atitude, vemo-lo nos pastores. O convite das criaturas celestes transforma-se, para aqueles homens, em oportunidade singular de contemplarem por primeiro a ação dinâmica da Revelação de Deus em meio a seu povo: a história se abre ao transcendente. “Vamos a Belém, para ver o que aconteceu, segundo o Senhor nos comunicou” (Lc 2, 15).  O cristão torna-se também pastor peregrinando apressadamente a Belém quando levanta-se da mesquinhez e da prepotência, do coração endurecido ao grito do próximo, dos murmúrios, e caminha. Assim é que se cumprem as passagens proféticas; mais que isso, assim é que se pode tocar o Menino agora dado a nós na Eucaristia, alimento da nossa debilidade em fatigante percurso. Ele nos escolheu e erigiu para nós verdadeiros recantos de paz.

Nesta hora devemos rezar ao Senhor para que mostre ao mundo a verdadeira paz que nasce na vitória do bem sobre o mal. Rezemos pelos lugares onde ainda ela não manifestou sua face, em particular o Oriente Médio. Que os esforços comuns não sejam inúteis. Mostra-nos o caminho da paz, chama-nos pelo nome, sinal da nossa identidade e expressão do vosso amor.

Belém é referência ao encontro de culturas através do desejo comum pela verdade, ou da curiosidade que move alguns sábios. É lá que os magos do Oriente e os simples pastores encontram o recém-nascido proveniente da sabedoria de Deus, que vem refrear o pecado e instaurar no mundo o desejo pela verdade e pela paz. Numa das antífonas das oitavas do Natal, assim a liturgia nos faz recitar memorando o livro da Sabedoria: “Enquanto um profundo silêncio envolvia o universo e a noite ia no meio do seu curso, desceu do céu, ó Deus, do seu trono real, a vossa palavra onipotente (Sb 18,14s)” (Antífona do dia 30 de dezembro). A gruta de Belém é o local onde as culturas encontram a Verdade de Deus tão esperada e prenunciada. Mas esse encontro não causa uma subversão do sentido próprio de cultura? Certamente, se cada um ali fosse para impor suas próprias convicções. A cultura não se encaminha e não converge para si, ela não é autossuficiente ou exclusivista; toda cultura abre-se ao desejo da verdade e só através dessa abertura se dá a interculturalidade e o diálogo cultural. Também a fé expressa-se como cultura, conduzindo homens e mulheres ao caminho divino. Hoje, difusas correntes de pensamento afirmam que somente libertando o mundo das religiões se pode haver verdadeira paz e que mormente o monoteísmo, em sua naturalidade, seria prepotência, causa de intolerância e violência. Sabemos, é verdade, que na história houveram momentos em que a religião foi usada como artifício para conflitos bélicos e intolerâncias. É verdade que isso se deu pela pretensa ideia de difundir o nome de Deus às custas de ceifeiros da liberdade. Mas assim como esta, o “não” a Deus nunca pode ser fator considerado para restabelecer a paz. O antropocentrismo exacerbado, dolorosamente, ofereceu ao mundo as guerras mais cruciais, em nome da verdade, que não está na violência.

É óbvio que a verdade não se impõe com a categoria racionalista cega e pretensiosa. Se ela não é uma abertura libertadora para o homem, em si mesma já é um peso. A verdade garante alcançar a realidade mais plena e funcional do existir. Há os que, por sua vez, não se deixam plasmar por essa percepção profunda trazida consigo. Esses a veem num prisma caducante, traduzida por conjuntos de preceitos morais nada mais transmitindo a não ser a hegemonia sobre a “imperfeição” natural. Que o Menino de Belém alargue o nosso coração para a novidade de Deus e nos conduza ao movimento salutar do amor, de corações capazes de permanecerem abertos a Maria e José.