O sentido das perguntas

perguntas_Algumas pessoas podem pensar que sou louco por preferir perguntas às respostas. Outros logo disparam: “isso é coisa da filosofia!”. Perguntar é sinal de vida, um aceno positivo ao questionamento permanente da realidade, distante do sensus mortis assinalado pela não possibilidade de perguntas. O sentido da vida “mora” nas perguntas. Perguntar é, portanto, a forma precisa para manter-se vivo. Quem não pergunta, já não vive; morre interiormente. As profundas aspirações do homem são evidenciadas nos seus questionamentos, ele é ontologicamente um ser de busca. Perguntar é mais imprescindível do que responder.

Para os que têm tendência imediatista – coisa não tão difícil de ver em nossos dias –, as perguntas não são mais do que um processo dificultoso na busca de determinado objetivo. Para os sábios, as perguntas são o real sentido em continuar vivo. A descoberta cotidiana do que realmente vale a pena, as experiências diárias que somam aos nossos anos, também as frustrações e desesperos, nos fazem repensar: por quê? Tantas interrogações não nos desnorteiam, antes, nos motivam a dar passos concretos deixando o plano ideológico e utópico e adentrando no mundo do que é mais próprio nosso: a incerteza. Sem as dúvidas não viveríamos. Até mesmo pelas perguntas se deve perguntar, e seria um infortúnio imenso não fazê-lo já que o podemos.

Somos seres incertos: dormimos hoje sem saber se acordaremos amanhã; viajamos sem saber se chegaremos; rezamos sem saber se seremos atendidos; desejamos sem saber se aquele pensamento tornar-se-á concreto. Vivemos no tempo da dúvida, das lacunas. Penso que aqui deveríamos começar a mudar nossa visão negativa sobre a interrogação, sobre quem duvida. Certa feita, folheando uma revista, me lembro de ter lido a seguinte frase: “Quem faz uma pergunta é ignorante por alguns segundos, quem não faz perguntas permanece ignorante para sempre“. O nosso maior medo não pode ser o da ignorância passageira, a qual todos estamos de certa forma subjugados. O pior é aquela angústia de ignorância permanente de quem diante das perguntas sempre tem respostas prontas, disparadas como flechas. Tornamo-nos seres “da palavra”, quando deveríamos ser pessoas do pensamento e do silêncio.

Obviamente os meios de comunicação proporcionaram a evasão das perguntas em detrimento das respostas. A humanidade foi engolida pela voracidade e velocidade a eles atribuída. Não é à toa que frequentemente confundimos essa parafernália de tecnologias com os valores mais importantes para a vida. Apegamo-nos às respostas que o Google pode nos levar e não àquelas que o nosso coração nos pode conduzir. Reduzimos a qualidade de vida porque, relativizadas as perguntas, nos detemos na possibilidade tangente e formal das respostas. Já não se contempla o desconhecido como “epifania” (manifestação).

“Uma das raízes do problema do mundo é que os idiotas estão cheios de certezas e os inteligentes estão cheios de dúvidas”, dizia Russell. Sendo lógico, Russell não considerou que talvez os poetas estejam mais certos: os idiotas têm certezas quando deveriam ter dúvidas e os inteligentes têm dúvidas e isso os qualifica como inteligentes. Se tivessem convicção plena de tudo não questionariam nada, seriam tão idiotas quanto os acusados.

Bom final de semana!