Existencialismo ateu? Entenda a crítica de Bento XVI

Vivemos ainda permeados pelos traços da filosofia existencialista em muitos aspectos. A nossa sociedade e o nosso contexto de pensamento estão mergulhados profundamente nas questões mais complexas a respeito do ser humano. Com isso, as fortes descargas elétricas das correntes filosóficas depois da Idade Moderna suscitaram no pensamento filosófico uma pertinente pergunta a respeito do homem que incluía, para além de uma visão antropológica tradicional, o inquietante aspecto da angústia. Sacudidos violentamente pelos conflitos bélicos suscitados no final do século XIX e início do século XX, o homem pós-moderno passou a buscar uma forma de responder aos anseios no qual encontravam-se imersos. Nasce então a corrente existencialista, que tinha como cerne do seu pensamento justamente a angústia. Essa era a sua filosofia principal, o fio condutor no qual haveriam de desenvolver seu trabalho.

Basicamente poderíamos resumi-lo em duas correntes: existencialistas ateus e existencialistas não-ateus. Obviamente, o existencialismo ateu sobressaiu com muito mais expoente do que o existencialismo cristão, uma vez que, ao menos em tempos modernos, os ateus se empenharam mais em afirmar a não-existência de Deus do que os cristãos em afirma-Lo existente. Duas grandes figuras destacam-se: Merleau-Ponty e Sartre. Havia a consciência que nada poderia aniquilar a angústia humana porque nada responderia definitivamente aos anseios e interpelações que o indivíduo carregava consigo.

Sartre, talvez um dos mais reconhecidos filósofos dessa corrente, ampara-se sobre sua formulação para questionar o aparente “apego” ou a crença do homem em Deus. Em duas sentenças taxativas assim pode-se condensá-lo: a existência precede a essência e O existencialismo é um humanismo (l’existencialism c’est l’umanisme). A compreensão do pensamento sartriano é a indagação profundamente contida no homem, elencada dentre as questões que tocam o seu ser. É algo que nos abrange.

Assistindo aos grandes genocídios do século XX, não nos estranharia que alguém perguntasse onde está Deus diante de tamanhos horrores e como Ele poderia ser indiferente perante o grito de milhares de seus filhos. A pergunta “onde está Deus?” é uma pergunta filosófica, mas a isto precede o anseio pela verdade. Há no questionamento sobre a existência de Deus um amparo (não posso omiti-lo) legitimamente racional e sincero daqueles que, mesmo não crendo, reconhecem a importância da figura divina e se sensibilizam com a dor dos que foram atingidos pelas calamidades até então vigentes.

Em toda essa noção de conhecimento do homem sobre as realidades com a qual dialoga e aquelas com a qual foi forjado a enquadrar-se (o essencial não é o que se fez do homem mas o que ele faz com o que fizeram dele), Sartre retoma a questão da existência de Deus para critica-la mediante o que tivera se sucedido no mundo e mediante a noção de liberdade, um dos pontos-chave de seu pensamento. Assim, ao afirmar que o existencialismo é um humanismo, não apenas destorce o conceito de humanismo, mas o faz aniquilar a visão de Deus. Escreve:

O existencialista não pensará também que o homem pode encontrar auxílio num sinal dado sobre a terra, e que o há de orientar; porque pensa que o homem decifra ele mesmo esse sinal como lhe aprouver. Pensa, portanto, que o homem, sem qualquer apoio e sem qualquer auxílio, está condenado a cada instante a inventar o homem (Sartre, O existencialismo é um humanismo, Coleção Os Pensadores, p. 9).

Reinventar-se a cada instante é o que concebia com relação a noção de homem e de humanismo, fugindo de qualquer padrão moral ou de ditames que a própria consciência naturalmente encarrega ao indivíduo. Não há, portanto, espaço para Deus no existencialismo sartriano, porque Deus seria a simples ideia “barradora”, isto é, um limite à liberdade e ao ato volitivo do agente humano.

Em 2010, quando lançou a sua Encíclica Caritas in Veritate, o Papa Bento XVI chamou ao centro do tema e, de forma sutil e cortês – como lhe é de caráter –, emitiu um juízo filosófico justamente tratando dos problemas que ainda hoje aferram o cenário mundial. Discretamente deixou uma mensagem quase nada compreendida e, a meu ver, sequer analisada com prudência pela filosofia: “O humanismo sem Deus é um humanismo desumano”, escreveu o Pontífice. Como compreender essa assertiva? Justamente em viés contrário ao que propagara o existencialismo ateu. Excluir Deus do pensamento humanista é esvaziar o homem de qualquer fundo de esperança porque concebe-se este mundo como mapa dramático de misérias e sofrimentos.

Conceber Deus seria de certa maneira o extravio da sensatez, a subtração da liberdade. Um ser que nessa vida passa para ser robotizado pela ideia de superioridade divina ditadora do que se deve fazer e quando amparado nessa “paixão” (Deus), não é atendido por ele diante dos horrores dos semelhantes. Quem pode conceber tal divindade? Mas se essa divindade não existe, logo não existem padrões, não se podem haver imposições que legitimem comportamentos. Ou seja, “somos nós e nós mesmos”, assim é o pensamento existencialista que atravanca o progresso do “ser”, retendo-o somente ao reduzido “eu”.

A crítica ao existencialismo ateu não está apenas contida às fronteiras da filosofia, mas estende suas raízes também ao aspecto teológico – que por motivos práticos não adentraremos agora com tamanha propriedade. Apenas desejo elucidar que tal corrente de pensamento criou uma instabilidade também ao homem da fé, já desprendido da base teológica e, portanto, necessitado de permanente inovação para incrementar quanto fora perdido. Chamando a atenção ao existencialismo desprovido de qualquer dimensão transcendental, Bento XVI quer exprobar qualquer tendência a desumanização do humano, ao esquecimento do homem como ser de necessidades realmente importantes além da pura imanência.

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