​Sociedade customizada (I)

O sociólogo polonês Zygmund Bauman, falecido em janeiro deste ano, durante sua vida trabalhou temas diversos com relação a grande problemática da frivolidade e supressão das relações; antes duradouras, hoje submetidas ao tubo de sucção da grande máquina pós-moderna ou da não seriedade e comprometimento com as devidas disposições assumidas. Assim é que no ano 2000 conceituou a pós-modernidade como “modernidade líquida”, e ao longo dos sucessivos anos evidenciou não apenas o comportamento líquido da mesma, mas a carga trazida por essa liquidez, quer fosse para a arte, o amor, o tempo… Enfim, tudo se vê afetado pela não-perenidade, isto é, a frivolidade em qualquer aspecto das relações antropológicas. Poderíamos dizer até mesmo ser o conceito de eternidade barrado pela caducidade dos valores interligados ao âmbito da fé. Para a Igreja, a fé é um encontro com uma Pessoa: Cristo. Este encontro, porém, necessita de uma complementaridade estimulante, livrando-o de uma mera experiência passageira.

Pois bem, caro leitor, não é isso que mais intensamente estamos a viver? Quando penso nas proféticas palavras do nosso filósofo, não me anulo em imaginar a subtração existencial do homem, sua desvalorização que o lançou aos postos mais baixos no quesito “ser”. O que temos em mente no conceito “homem”, não é mais aquele fornecido pelos filósofos helenistas ou medievais, mas a projeção amadora construída ao logo dos últimos séculos, culminando na imagem hoje fornecida pela história.

Seria complexo aprofundar aqui as dimensões do homem e todas as suas adjacências. Abreviarei meu pensamento e a leitura do amigo, tratando apenas da liquidez devoradora do homem sólido. Como a mulher de Lot, a recomendação de não olhar para trás vale a nós também. Devemos, defendo isso com todas as forças, ao invés de lamentar o passado, concertar o presente e mudar o futuro. Seria injusto se descaracterizássemos o homem presente, imparcialmente, em vista da construção utópica do homem sem defeitos, perfeitamente ajustado aos parâmetros morais e filosóficos. Só tenderíamos ao mesmo erro de Hitler e sua projeção deturpada de purificação. 

Temos vivido um processo de liquidez emblemático. Quem é o homem? Já não se conceitua com precisão. Mas há outro campo que padece: o amor. Amar tornou-se um subterfúgio para a carência ou um espaço de tempo onde posso entregar-me àquela pessoa sem nenhum compromisso para a vida. Não tenho pretensão em alegar que a solução seria casar com o primeiro namorado ou com o segundo ou com a, b. Apenas o seguinte: todo amor que estabelece uma relação sincera entre duas pessoas deve ser levado a sério. Quanto mais evitamos nos comprometer definitivamente com o outro, mais nos fechamos à possibilidade de acharmos alguém que nos ajude a caminhar.  

Felicidade e prazer são aspectos diversos. Prazer é uma brevidade que nos excita ou produz a liberação de neurotransmissores produtores da sensação de bem-estar temporal. Ou seja, eu tenho prazer em comer algo, mas logo acabará. Eu tenho prazer em ver minha conta gorda no banco, mas assim que recordo-me dos problemas em minha casa, volto a entrar num processo de tristeza profunda. Pelo contrário, o amor é autenticamente experiência de liberdade, sem forçar ou ser forçado; quando o objeto de desejo não é visto apenas no ângulo “coisal” – para recorrer a arte poética de Manoel de Barros. O anseio pelo que não temos sob nossos cuidados, a vontade de ter o que não possuímos, mas sobretudo a entrega recíproca. O amor proporciona felicidade porque ele não estabelece tempo, ele torna-se o tempo. E assim, com todas as pessoas que amamos, nossa relação é sempre pautada no respeito e na perenidade. 

Concluo recordando: a sociedade atomizada impõe a si o critério de verdade ou falsidade, do que deve ou não ser feito e de como deve ser feito. Entre tantos “por quês” a prudência é nossa bússola e a verdade a nossa meta.

Boa semana!

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