As serpentes de Apolo

Ultimamente tenho pensado em como gostaria de viver na Dinamarca onde nada acontece desde a época dos vikings. Quanta agitação política se tem visto!  O triplex da política está fortemente sacudido pela onda de terremotos. 

Mas foi num recente documentário onde recordei uma figura por muito esquecida – mas não apagada – de minha mente. Laocoonte e seus dois filhos, Antífantes e Timbreu, é uma representação que está conservada no Museu Vaticano. Segundo relata a mitologia, foi estrangulado por duas serpentes marinhas, uma lenda da Guerra de Troia também relatada na Eneida de Virgílio. Laocoonte teria sido sacerdote de Apolo, e irritou o deus, ou por ter se casado e tido filho, ou por ter arremessado uma lança contra o cavalo de Troia. Em vingança, Apolo teria enviado os répteis para matar seus filhos, e Laocoonte foi morto ao tentar salvá-los.
Temos hoje as nossas serpentes, Laocoonte e os seus filhos. Não é minha pretensão fazer anacronismo; já temos tantos, caro leitor! Aliás, é pouco original esta ideia de forçosamente inserir o passado no presente, tentando tornar a leitura ideal de fatos que historicamente podem não caber ao ponto que nos situamos. Malgrado, não é de todo ruim relembrarmos que certos erros de outrora podem incidir sob novas roupagens em nossa sociedade, levando-nos a rememorar exemplos já tidos. Embora a citada estória seja parte do arcabouço helênico, temos crises similares de perda do bom senso que faz crer podermos atirar lanças ao cavalo de Tróia brasileiro. As serpentes denominá-las-emos: Senado e Câmara.

Todo povo é dotado de história e memória. Desfalcando-se uma dessas, perde-se a identidade do homem, isto é, seu passado. O Brasil parece estar sob forte influência do mal de Alzheimer, que o fez esquecer suas fontes, os entraves e percalços que sujeitou-se para chegar ao Estado de direito democrático. 

A política e a economia veem-se desafiadas. Estamos sendo alvos de uma crise jamais vista desde os tempos Collor. Em 2013, com a saída de milhares de brasileiros às ruas, o grito manifesto era de maior dignidade para o povo e de uma política transparente e honesta – substantivos, para nós, infelizmente tornados antagônicos. Desde ali, não tivemos paz, sucedendo-a logo após a operação Lava Jato. 

Quando não se conjuga política com seriedade, beiramos a bestial infantilização que vergonhosamente pinta o quadro do país mundo a fora. Quem olha para nós externamente não é capaz de admirar-se com o nosso potencial de belezas naturais e com a possibilidade de crescimento econômico. Já não estamos deitados em “berço esplêndido”, e sim selados pela degenerada atitude dos nossos des-governantes. Não quero delegar a estes a função angelical que não lhes pertence, seria irônico demais se o fizesse. Mas diante das incertezas e constatações, vejo-me obrigado a apontar que o defeito está não no sistema em si, mas em seus sistematizadores, isto é, nos que fazem o sistema acontecer. Não sou – dissera numa anterior publicação do Facebook – daqueles vitimados – ou que ao menos assim se fazem – por não ter um sistema monárquico em vigência. Se a Monarquia nos caiu bem durante anos, após uma interrupção de mais de cem seria brutal impor que vigorasse outra vez. 

Caso diferente ocorre na Inglaterra, onde mantém-se vigorosa sob a regência da rainha Elizabeth II, que provavelmente deixará de governar na segunda vinda de Cristo. Nesse reduto histórico do século XXI, os conflitos insurgem a partir da difundida ideia de aniquilação dos valores éticos e morais. Suscito, assim, uma pergunta pertinente: são os políticos corruptos ou são os corruptos a se tornarem políticos? Se levarmos em conta que o problema está no sistema, mudando o sistema talvez resolvêssemos a crise. Olhando para trás veremos que a monarquia esteve sujeita ao mesmo problema, Roma em seu poderio ainda mais. A religião justifica que desde o pecado de Adão e Eva há uma facilidade generalizada no homem para a prática do mal e a tendência de corromper-se, essa facilidade pode ser vencida ou não pelo bem.

Acredito que o nosso futuro está potencialmente oculto sob a possibilidade de relembrarmos os valores que regem a nossa conduta humana. Não somos seres desprovidos de parâmetros. Os parâmetros nos ajustam de acordo a realidade que permeia e borbulha ao nosso redor, afinal, estaremos sempre no fio da meada.

Boa semana!

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