I Domingo do Advento – A compreensão escatológica do amor

(I Leitura: Is 2,1-5      II Leitura: Rm 13,11-14a      Evangelho: Mt 24,37-44)

Com o início do ano litúrgico A, ano de São Mateus, a Igreja nos insere novamente na celebração do tempo do Advento, estimulando-nos a compreensão divina do mistério da primeira vinda de Cristo sem deixarmos de meditar sobre a segunda, que se dará na dimensão escatológica, onde poderemos contemplar a face de Deus incessantemente conforme enuncia o salmista: “Que alegria quando me disseram: ‘Vamos à casa do Senhor! ’” (Sl 121). Jerusalém é transposta e assumida aqui na simbologia de casa: a eternidade. Lá é o local da verdadeira morada dos que peregrinam neste mundo esperando conforto e paz em Deus. A cidade santa que detinha grande parte das peregrinações e do destino dos transeuntes era o fulcro da comunidade hebraica na época de Jesus e ainda hoje. Ali estava o santo dos santos, no templo – posteriormente destruído, restando apenas duas de suas paredes ocidentais, Muro das Lamentações; lá estava o monte das Oliveiras, onde situava-se um cemitério, local sagrado aos judeus; o centro do judaísmo estabeleceu-se ali porque dali emanava a palavra do Senhor (cf. Is 2,3). Enfim, dentre tantas coisas, era marcada como sinal da paz, o lugar de Deus, da serenidade, da alegria. Compreensível que por isso o salmista tivesse dito: “Se algum dia de ti eu me esquecer, Jerusalém, que resseque a minha destra e se prenda a minha língua ao céu da boca” (Sl 137,5-6).

Os salmos cantam a beleza deste centro da fé judaica com exatidão poética. Encontramos diversos escritos e poderíamos enumerá-los se isso não demandasse tempo, paciência do leitor e paciência do escritor. O Novo Testamento nos presenteou com um conceito mais expansivo de Jerusalém que não o da cidade santa. O autor da carta aos Hebreus escreveu: “Chegastes ao monte Sião, à Jerusalém celeste, à cidade do Deus vivo, ao coro de milhares e milhares de anjos, à assembleia festiva” (12,22) Existe uma cidade celeste para a qual todos caminhamos, onde nossos olhos poderão cessar as lagrimas porque a nossa boca dará risos e o coração será acalantado pela contemplação de Deus. Essa cidade não é utopia, forma lúdica de sustentar a fé dum grupo para não esmorecerem no percurso.

O ciclo do Advento que hoje começamos nos insere no mistério escatológico da fé, preparando-nos para a celebração do nascimento do Menino Deus. Neste tempo, oportunamente, mergulhamos naquele advento definitivo, marcado pela promessa da parusia. Não faria sentido, de fato, falarmos do Natal hoje sem que nossos corações se predispusessem a um preparo eficaz da segunda e definitiva vinda, na qual o Senhor nos chamará a Juízo para prestarmos-lhe conta de nossas ações em vida. Falar do Natal é consirderar o Cristo juiz que virá para completar a obra um dia começada pelo Pai. A parábola do juízo final nos faz compreender melhor esta visão, por vezes assustadora e punitiva (cf. Mt 25,31-46).

Na parede central da Capela Sistina encontra-se uma das mais famosas obras de Michelangelo e um dos mais conhecidos retratos da fé cristã: o Juízo final. O afresco é composto por cenas religiosas e mitológicas. Gostaria, contudo, de deter-me na figura do Cristo para que a maravilha dos detalhes não desfoque a nossa atenção. O Cristo que o artista nos faz ver é extremamente exótico daquele construído por nossa mentalidade. Uma figura robusta, musculosa, com um peso no olhar quase a deixar transparecer severidade inigualável. Sentado sobre a nuvem, ergue a mão exprimindo sua autoridade e determinação, afastando os pecadores ao mesmo tempo em que parece proteger a mãe temerosa, em posição vulnerável. Um cenário de susto e de terror.

Mas existe um sentido pelo qual crer que não nos intimide na obscuridade de um pensamento precipitado sobre esta cena mistagógica? Na figura do Cristo de Michelangelo parece estar sintetizada a emancipação daquele padrão icônico e misericordioso. Talvez devêssemos perguntar-nos: não está em tudo isso algo mais do que uma expressão da “ira” de Deus pelos pecados? Diria por detrás de tudo estar o amor. Somente ele pode mover-nos apaixonadamente em direção ao que virá exercer sua função de Senhor da história. A compreensão do amor de Deus é o ato do seu deslocamento da eternidade na direção do homem. Saindo da inacessibilidade, o Senhor aperfeiçoa, ou melhor, muda radicalmente o conceito de “deus”; aclara, por assim dizer, o exercício do movimento interno que cada ser humano é chamado a cumprir até a meta divina. Relação recíproca: Deus vem ao homem, o homem vai a Deus; perfeito e imperfeito entrelaçaram-se favorecendo a purificação autêntica, não recriminativa de diferenças biológicas ou sociais, encerrando todos no seu amor.

Vigilância é a outra palavra que sussurrará em nossos ouvidos durante estes quase 30 dias. Mateus em seu evangelho coloca na boca de Jesus a sua comparação com Noé. “A vinda do Filho do Homem será como no tempo de Noé. Pois nos dias, antes do dilúvio, todos comiam e bebiam, casavam-se e davam-se em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca. E eles nada perceberam, até que veio o dilúvio e arrastou a todos” (Mt 24, 37-39).

Ainda no início da Escritura, encontramos a narrativa do dramático acontecimento do dilúvio. No tempo de Noé, Deus se sentira profundamente ferido pela depravação moral em que se encontrava o povo que tivera criado. Diz o texto que “A terra se corrompeu diante de Deus e se encheu de violência. Deus olhou para a terra: estava toda corrompida, pois toda carne se pervertera sobre a terra” (Gn 6,11-12). O pecado estava assinalado na primeira criação, consequência da decadente escolha de Adão e Eva. Todos conhecemos a história da “arca”, sabemos como veio a terminar. Já em nossa era, os Padres da Igreja associaram a figura da arca com a Igreja e o dilúvio com o batismo.

Nas páginas mudas, passamos a qualquer coisa que nos faz vibrar interiormente. Jesus Cristo anunciando a sua vida como o dilúvio, pretende advertir-nos para que não submerjamos como, outrora, submerjeram aqueles que negligenciaram o compromisso com Deus. A Noé não foi permitido que anunciasse nada, mas o novo Noé, Jesus, pode agora difundir o anúncio da salvação, conclamando os povos à conversão e estatuindo a sua “Arca” na figura da Igreja. Doravante, não mais serão os homens a perderem a vida, senão os nossos pecados a serem afundados nas águas batismais, preparando-nos para o novo tempo no qual dignifica-nos unicamente o título de “filhos de Deus” (1Jo 3,1).

Maria, Mulher da espera e da esperança, nos ajude a trilhar com proficuidade esta via que nos conduzirá novamente a Belém, local de onde emana para o mundo os raios da salvação e da paz. O convite hoje é profético: “Vinde todos da casa de Jacó e deixemo-nos guiar pelo Senhor” (Is 2,5).

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