No itinerário da misericórdia: a alteridade como possibilidade de encontro

Jitaúna, 13 de novembro de 2016

1ª meditação

Na intimidade com o Senhor

            O retiro a que hoje nos predispomos neste agradável lugar, deve-nos motivar a moção interior, a movimentação na direção de Deus que se apresenta como o nosso principal “objeto” neste momento ímpar. Considero que estas horas são sobretudo carregadas de uma novidade íntima, estimulante dos nossos sentidos a retirar-nos das balburdias, angústias, inquietações, distrações e atalhos que este mundo cotidianamente nos apresenta. Aqui devemos unicamente falar com Deus para depois podermos falar de Deus. Às vezes facilmente Ele cai no descrédito das ditas “mentes brilhantes” que procuram explaná-lo demais e vive-lo de menos. O resultado não é outro senão um excessivo racionalismo ou uma indução ao ateísmo. Aprendamos com um grande filósofo, Blaise Pascal, que dizia: “Tudo o que é incompreensível nem por isso deixa de existir”. O então Cardeal Ratzinger alertou para o risco da queda neste “falar”. Disse:

Parece-me que os pregadores de hoje falam pouco de Deus. O tema ‘Deus’ é muitas vezes marginal. Fala-se muito de problemas políticos, econômicos, culturais e psicológicos. Pensam que Deus já é conhecido e que os problemas práticos da sociedade e do indivíduo são mais urgentes… E aqui Jesus nos corrige: Deus é a coisa mais prática e urgente para o homem. Como discípulos de Cristo, temos que dar ao mundo essa realidade mais urgente: a presença de Deus [1].

Se o nosso testemunho antes do mais não se configura a identidade do ser cristão, o nosso falar será vazio, anti-evangélico. Jesus adverte para a prática do esvaziamento da Palavra quando alerta que a bem-aventurança só se dá verdadeiramente quando sabemos colocar em prática a vontade de Deus, e essa relação é quase de consanguinidade (cf. Lc 11,28).

Retirar-se é estar mais intensamente com o Senhor, demorar-se com Ele, permitir que a sua fala não seja sufocada pelos barulhos externos que atrapalham uma clara audição da sua voz. Sentindo a necessidade de falar com o Pai, Jesus subia a montanha para experimentar essa acentuada mística orante, esse percurso interior no encalço divino. A vontade do Pai precisava ser realizada. Mas, à prática, precede a escuta. Percorramos nós, hoje, o caminho do Tabor e subamos ao encontro do Pai. Neste “êxodo interior” poderemos achar percalços, atalhos que se tornarão sempre mais atrativos à medida que os passos ficam mais distantes da planície e mais perto do topo da montanha. Não nos deixemos enganar! Determinadas atrações imediatas, não tardam em se tornar demasiado pesadas, fatigantes, verdadeiras ciladas.

Se, a princípio, o Evangelho nada tem de atrativo, com o passar do tempo a sua vivência ganha horizontes alargados, certezas descobertas ao longo do percurso, uma via crucis que é capaz de culminar na via lucis. Existe não apenas uma promessa escatológica: Vereis o Filho do homem assentado à direita do Poderoso e chegando com as nuvens do céu” (Mc 14,62), mas a certeza de que esta presença já se pode perceber hoje, já a sentimos agora: “Eu estarei convosco todos os dias até a consumação do mundo” (Mt 28,20). Permitamos que essa presença visite os cômodos da “morada” interior do nosso coração. Que Ele revire o baú dos nossos sentimentos e nos faça examinar tudo, guardando apenas o que for bom (cf. 1Ts 5,21).

O retiro possibilita também a dimensão da fé. Quando somos capazes de sair do concreto, do realístico, do sensitivo, aprendemos a exercer a humildade e mansidão própria do Cristo (cf. Mt 11,29). Mansidão (mansuetudo) é habituar-se, adaptar-se à mão de alguém, permitir-se plasmar; mansidão é fé, é confiança. Como não me pertenço, deixo-me guiar por outro, submeto-me às dificuldades e usufruo das alegrias que ele porta em suas características. Não é fácil deixar-se delinear por alguém que não conhecemos. Ainda que não O conheçamos, Ele nos conhece desde antes do ventre materno (cf. Jr 1,5), nos chama pelo nome (nossa principal identidade) e de nós espera uma resposta calorosa, uma acolhida festiva.

Sim, Senhor, molda-nos conforme o teu querer, dirige-nos segundo a tua misericórdia. Fazei-nos compreender que o amor a Ti é pressuposto para o aprendizado do amor ao outro e do exercício da misericórdia e da alteridade. Que o retiro seja sinônimo de um “lançar-se”, o salto da fé que todo crente é chamado a dar.

Nesta primeira hora, não podemos deixar de volver nosso olhar à figura materna de Maria. Ela, mãe de ternura e misericórdia, nos aponta o caminho do seu Filho. Dela aprendemos que onde impera a dor, maior ainda deve ser o desejo do perdão; este, condição necessária para vivermos melhor o nosso ser cristão. Na tradicional e rica oração da Salve Rainha, pedimos que ela volva a nós o seu “olhar misericordioso”, uma interpretação paralela leva-nos a cantar: “volta para nós o Mãe, teu semblante de amor”. Queremos consolar-nos neste olhar amoroso, cheio do desejo de perdoar, a indicar-nos o caminho da “misericórdia divina em pessoa” [2].

 

2ª meditação

A Misericórdia regeneradora

            Prestes a encerrar o Ano Extraordinário da Misericórdia, proposto pelo Santo Padre Francisco no período da Solenidade da Imaculada de 2015 até a Solenidade de Cristo Rei de 2016, somos chamados a uma avaliação geral daquilo que significou para nós este kayrós (tempo da graça) ou tempo da misericórdia. Diria que em certo sentido vemos uma associação com o ano da graça que Isaías proclama e Jesus reafirma na sinagoga de Nazaré (Is 61,1-2; Lc 4,18-19). Foi, de fato, um ano agraciado pela singeleza em recobrar o ponto de partida da nossa fé. Nós somos frutos da misericórdia, somos experimentados e a experimentamos: “Deus, que é rico em misericórdia, impulsionado pelo grande amor com que nos amou, quando estávamos mortos em consequência de nossos pecados, deu-nos a vida juntamente com Cristo – é por graça que fostes salvos!” (Ef 2, 4-5). É ela a força motriz do ser cristão proveniente da própria natureza de Deus, e por isso nela não há dubiedade ou falsidade. Somente se o nosso espírito se predispõe a ela, sua ação é verdadeiramente eficaz.

Na misericórdia, a Igreja entra na experiência do encontro pessoal com Deus, vive o dinamismo do seu amor, entrelaça-se na força arrasadora da compaixão. É uma nova e verdadeira proposta de êxodo traçada na direção da visão divina apresentada pelo próprio Jesus. O Messias rompe, por assim dizer, o olhar de um Deus marcado pela ira, pelo desejo de vingança, impondo-se mais pelo temor que pelo amor. São João adverte posteriormente ser essa dimensão temerosa incompatível à natureza divina, pois “no amor não há temor. Antes, o perfeito amor lança fora o temor, porque o temor envolve castigo, e quem teme não é perfeito no amor” (1Jo 4,18). No fio condutor desta ideia judaica, Ele arrelia os chefes dos judeus e responsáveis pela conservação da doutrina, transmutando-a de um prisma engessado àquele ativo. Quem não se recorda, por exemplo, da mulher surpreendida em adultério, quando, da boca do Rabi, emanou-se a sentença: “Quem de vós estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra” (Jo 8,7). Naquele momento não era maior à mulher o alívio da morte que o peso na consciência.

Dando um particular ponto de vista, procuremos colocar-nos em ambos os lados para compreendermos a dramaticidade da cena, a fúria dos judeus, o desejo e olhar da mulher. A ânsia dos escribas e fariseus era algo extremamente normal, diríamos até obrigatório (“Moisés mandou-nos…” – v. 5).   – Devemos cumprir a Lei, ela pecou e foi sentenciada por seu pecado, necessita pagar por ele. Surpreendida foi em adultério e, portanto, não nos há outra obrigação senão essa. Tomamos as pedras nas mãos; enfurecidos, vamos liquidá-la; de nada nos serve mais, nem a nós, nem a sociedade. Quais eram os motivos que a levavam àquele ato? Não sabemos e nem queremos saber! Apenas a lapidação poderá justificar a sua culpa. Outros vendo aprenderão e sequer se atreverão a incorrer neste erro. Somos superiores a esta. Antes, porém, passemos no Mestre, aquele Jesus que se diz conhecedor da Lei. Procuremos pegá-lo nalgum descuido que saia de sua boca. Se disser que é culpada, acusá-lo-emos de não exercer misericórdia; se a considerar inocente, diremos que desconhece os mandamentos de Moisés ou que a eles se opõe.

Aqueles judeus não podiam compreender o sentido deste “encontro” porque revestiram Deus de uma multiplicidade de roupagens. O temor se tornou medo, o amor se tornou submissão, a esperança se tornou forçosamente espera sem ânsia, por isso mesmo vazia, monótona, desesperançosa. Nada se poderia haurir desta figura caricaturada, distante, fria. Reconheciam os prodígios do Senhor por meio dos seus feitos – sobretudo na saída da escravidão do Egito – mas impunham fardos pesados que levaram Jesus aos famosos sete ai’s (Mt 23). Aquele que se preocupava com o pobre, a viúva, o órfão, é moldado pelos ditames da consciência das autoridades.

Por providência deixei a Bíblia aberta em Levítico 25,26, quando retornei, imediatamente bati os olhos nesta citação: “O sacerdote fará por ele a expiação diante do Senhor, e ele será perdoado, seja qual for a falta de que se tenha tornado culpado”. A misericórdia sempre esteve latente na imagem canônica de Deus; ainda quando parecia tomar decisões vingativas, as entrelinhas nos confidenciavam o contrário. Cito o Pe. Pedro Júnior, da Arquidiocese de Feira de Santana, autor do belo livro Por um amor esponsal: “O Senhor deu-se a conhecer, veio ao nosso encontro para estabelecer conosco um consórcio de amor. Eis a nossa vocação! O viver cristão se configura como uma resposta de amor e, sob este prisma, somos chamados a orientar a nossa vida moral e espiritual” (p. 18). “Deus é amor” (1Jo 4,8). Não obstante, não faltam pessoas hoje para continuarem o trabalho de caricaturistas da sua imagem, os legalistas da fé, os moralistas que imprecam contra outros em causa dos seus pecados, tornando-se “medidores” da misericórdia. Sobre estes o Senhor afirma severamente: “coam mosquito e engolem camelo” (Mt 23,24).

O que poderia ocorrer na cabeça daquela condenada? Intuímos: – Estão para por fim a minha vida. Logo deixarei este mundo porque agi incorretamente. Onde está a misericórdia prometida pelo Deus de nossos pais? Onde está o consolo que os nossos antepassados já esperavam? Não tive outra oportunidade na vida, apenas isso estava ao meu alcance; tinha que me sustentar pelo menos com um pedaço de pão. Teu salmista cantou e interrogou o teu amor: “Por acaso, seu amor foi esgotado? Sua promessa, afinal, terá falhado?” (Sl 76,9). Se ao menos fosse me dada uma chance de reconstituir a minha vida; de costurar os rasgos que nela causei; de sentir o não-esgotamento desse amor. Agora sou levada a Jesus. Haverá de me perdoar? Quem é esse que tanto falam? Dizem que é enviado de Deus e que fala do amor, do perdão e da paz. Será Ele a centelha de esperança?

Asseverando a culpabilidade de cada um, o Mestre mostra que todos estão ao alcance da mão misericordiosa de Deus e ninguém é totalmente isento a ponto de erguer a pedra para atirá-la. Imaginemos que olhar aquela mulher lança sobre Jesus! Quem era aquele homem que falava com tanta autoridade, quase como Deus? Não era um simples profeta, pois nunca poderia dizer: “Ninguém te condenou?” (v. 10) e emendar imediatamente, diante de sua negativa: “Vai e não tornes a pecar” (v. 11). Este homem verdadeiramente tinha algo incomum: nele havia o brilho de esperança procurado por ela, ainda que não desconsiderasse seu pecado. Diante do desejo de ser perdoada, da ânsia pela misericórdia e da espontaneidade de livrar-se do lamaçal em que se tivera lançado, o encontro com Jesus foi sem dúvida o marco transformador da sua história.

Em minha mente encontra-se ainda impresso um trecho da cativante leitura do Frei Inácio Larrañaga, que escrevera numa de suas mais belas obras:

Nosso Deus é desconcertante. Quando menos esperamos, como em um assalto noturno, Deus cai em cima de uma pessoa, abate-a com uma presença poderosa e inefavelmente consoladora, confirma-a para sempre na fé e deixa-a vibrando talvez por todos os dias de sua vida… Quem quiser alistar-se entre os combatentes de Deus tem que começar aceitando essa realidade primária: Deus é assim: gratuidade [3].

Gratuidade… palavra relegada, lançada aos porões de uma sociedade onde prevalece o lucro, cada dia mais insistente pelo capital, receosa em dar sem nada esperar em troca tendo haver o custo-benefício: cash de exploração e cash de investimento, isto é, para que eu invista é necessário que no ato receba o suficiente para cobrir a despesa do investimento. Deus não funciona assim! Ele não nos avalia como produto monetário, e cobra que façamos o mesmo com o outro: “Não devias tu também ter compaixão do teu companheiro, como eu tive piedade de ti?” (Mt 18,33).

O Senhor não é invasivo, não penetra a nossa liberdade de consciência para forçosamente nos motivar algum gesto de misericórdia. Ele inflama o nosso desejo, permite que o seu Espírito arda em nós e, então, nos deixemos conduzir por seu amor, compreendendo a assertiva paulina: “a letra mata, mas o espírito vivifica” (2Cor 2,3). No Apocalipse, dirigindo-se às sete Igrejas, Jesus faz a mais bela promessa à Igreja de Laodicéia, a mais difícil, ociosa, flexiva, e acusada de ser “morna”, estando prestes a “vomitá-la”. Se se converter, receberá a maior de todas as consolações: “Eis que estou à porta, e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo” (Ap 3,14-20). Nesta porta Jesus bate, desejoso por entrar e cear conosco. Ele não viola o livre arbítrio, não rompe o “lacre” que sacraliza a nossa consciência, não motiva nossa adesão forçosa ao seu projeto. Que belo é este Deus! Diferente da percepção deífica grega ou romana, Jesus apresenta uma face desconhecida do Pai, ensina-nos a assim chama-lo (Abbá) e ratifica que “a consciência é o núcleo secretíssimo e o sacrário do homem onde ele está sozinho com Deus e onde ressoa sua voz” [4].

Voltando à mulher surpreendida em adultério, em sua ilustração vemos compendiada a dimensão humanitária do homem que não se abre à voz de Deus, aos seus mandamentos, e portanto prostitui-se com os ídolos do dinheiro, do poder, da escravização de si a outra pessoa, da corrupção. Israel recebe esta analogia no livro de Ezequiel (16). O profeta narra a história do povo hebreu como uma menina abandonada pela mãe, deixada ainda envolta no cordão umbilical, exposta aos perigos. Passando junto à criança, o Senhor a toma, leva consigo, cuida para que ela receba todo o necessário em sua formação e desenvolvimento biológico. Crescendo, torna-se uma bela mulher, o Senhor adorna-a com suas joias, ouro, seda fina, véu, dá-lhe sapato a calçar, unge-a, dá-lhe o mais fino alimento. O deletério disso tudo: aproveitando-se da beleza, ela trai o Senhor, dá-se a qualquer transeunte, usa do que conquistou com Deus para prostituir-se com outros deuses. “Por acaso são poucas as tuas prostituições?” (v. 20), indaga Ezequiel. Arrependida, deverá voltar ao Pai, assentir o pecado cometido; Ele a perdoará e estabelecerá uma aliança “a fim de que te recordes do passado e te envergonhes, e que, em tua vergonha, não tenhas mais a audácia de abrir a boca, quando eu houver perdoado os teus delitos” (v. 63).

Destarte, na história de Israel a misericórdia de Deus vai se mostrando gradualmente, crescendo na força dinâmica do amor renovado, cuidadoso, paciente, esperançoso. São Paulo elencou três virtudes como molas propulsoras da vida interior: “Permanecem estas três coisas: fé, esperança e caridade. A maior delas é a caridade” (1Cor 13,13). Caridade e misericórdia estão interligadas, encontram no homem um ponto comum de unidade: a identidade. Somente na totalidade do nosso ser podemos dar uma resposta concreta ao Senhor. Aquela mulher diante de Jesus sem dúvida deve ter permitido que todo o seu passado viesse à tona, percorresse sua mente como um filme, fazendo-a sentir o inteiro abandono em sua suavidade. Tomando consciência do seu eu, pode fazer um caminho de conversão interior, o itinerário para a misericórdia, impulsionada pela vivacidade do Mestre. Eis aqui o ponto de onde partiremos na segunda meditação: alteridade, a relação com o totalmente Outro.

Precisamos sempre de contemplar o mistério da misericórdia. É fonte de alegria, serenidade e paz. É condição da nossa salvação. Misericórdia: é a palavra que revela o mistério da Santíssima Trindade. Misericórdia: é o ato último e supremo pelo qual Deus vem ao nosso encontro. Misericórdia: é a lei fundamental que mora no coração de cada pessoa, quando vê com olhos sinceros o irmão que encontra no caminho da vida. Misericórdia: é o caminho que une Deus e o homem, porque nos abre o coração à esperança de sermos amados para sempre, apesar da limitação do nosso pecado [5].

Na Misericórdia não reside apenas o aspecto da dimensão espiritual: existe também a dimensão natural, corpórea. O homem é ser de vontade e desejo, ontologicamente está isto posto no mais íntimo da sua natureza. A aspiração divina que traz não é negada pelo desejo que nasce das tocantes experiências que vivencia; antes, pode ser “traída” por elas, segundo o Senhor destacou aos discípulos no momento crucial do tormento: “o espírito está pronto, mas a carne é fraca” (Mt 26,41). Ele que caiu na vida daquela mulher adúltera, quer também cair na minha e na sua vida, em nossa dimensão de pessoa tantas vezes deturpada, manipulada, subjugada aos interesses relacionais, políticos, sexuais. Dados ao prazer, saciamos os desejos do corpo enquanto tencionamos a alma a viver uma aniquilação perigosa. Corremos o risco de cair no descuido da mulher citada, banalizamos a condição física em nome de atitudes não-condizentes com o ser cristão, práticas lascivas, detentoras de perjúrio ao templo de Deus que torna-se cada homem lavado nas fontes batismais. Paulo sentencia para os que não exercitam a misericórdia com este templo sagrado, o uso da justiça do Senhor: “Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá” (1Cor 3,16-17).

3ª meditação

Alteridade e o “totalmente Outro” no prisma da misericórdia

            Fixaremos agora nosso olhar num ângulo relacional entre os seres humanos e, como não poderia deixar de ser, amalgamaremos a posição de Deus neste diálogo antropológico. De fato, me agrada muito estes dois conceitos: alteridade e “totalmente Outro”. Gostaria que nos debruçássemos sobre eles nesta segunda meditação para que a misericórdia possa desdobrar um significado mais especial e intenso em nossa humanidade e cristianismo. Não se pode efetivamente falar de Deus sem meditarmos sobre como está a nossa relação com os demais, aqueles que compartilham do mesmo espaço que eu, da casa, do transporte, do trabalho, da igreja. O Cristianismo é taxativamente um espaço não unicamente de relação com o Criador, de reconhecimento da sua grandeza. Em si, se isto é possível, ocorre uma dilatação capaz de inserir nela o próximo, de trazê-lo para o meu espaço, partilhar aspectos da vida, travar um diálogo saudável que possa edificar um ambiente respeitável, capaz de conviver sadiamente.

Na alteridade somos chamados a nos colocar no lugar do outro. Costumo dizer, entrarmos no seu recinto, delicada e cuidadosamente, sem deixar derrubar qualquer objeto ou evitando interromper o sossego alheio. Permitir-se assumir outro lugar não é o início da perda de identidade, mas a possibilidade de um autêntico encontro, do conhecimento verdadeiro, desarmado de qualquer pré-juízo ou impedido de qualquer pré-conceito. Colocar-se no lugar do outro é o início para a descoberta de identidade. Por isso, quando tomamos a iniciativa de entrar no cômodo de alguém, devemos antes pedir-lhe permissão… imprescindível. Não posso tolher a liberdade de quem ali não me quer, mas não posso me dar ao luxo de criar uma seletividade: tenciono-me mais aos ricos ou aos pobres, aos estrangeiros ou compatriotas, aos cristãos ou não-cristãos, aos homens ou mulheres, etc. Sou capaz de estabelecer contato com todos, coloco-me no lugar de cada um e vejo a partir do ângulo deles.

A queda dos regimes totalitários no início do século XX, por exemplo, libertou-nos de uma escravização ao mesmo tempo em que eclodiu outra divergência: a questão do uso da liberdade. Existe uma íntima ligação entre a liberdade e a alteridade, e uma só encontra sentido pleno na outra. “Dizer que sou livre significa que posso fazer uso bom ou mau da minha liberdade: se a uso bem, consequentemente eu próprio me torno melhor, e o bem que realizei influi positivamente sobre quem me rodeia; se, pelo contrário, a uso mal, as consequências serão o arraigamento e a difusão do mal em mim e no ambiente circundante” [6]. Somente se exercida como disponibilidade para o outro, a liberdade encontra verdadeiro valor. Da mesma forma, somente quando livre a disponibilidade para o outro pode ser qualificada em verdadeiro dom. Quando postas em revelia, a primeira torna-se libertinagem; a segunda, escravidão.

Já faz algum tempo que todas as vezes que me genufleto diante do sacrário ou ponho-me numa íntima solidão para as orações, tenho sido levado, talvez por curiosidade, talvez por amor – espero que mais por amor –, a questionar-me sobre a figura de Deus. Quem é Ele para mim? Qual a importância e o posto que ele adquire na minha história, no meu cotidiano?  Não poucas vezes, Deus é visto como o Ser supremo da história, uma lei e entidade que se impõe ao indivíduo a partir de fora, ao qual absolutamente nada pode escapar. Existe uma imagem pré-definida na concepção humana que nos dá uma caricatura divina. Eis aqui, como já citei anteriormente, o nosso problema! Caricaturamos Deus e o outro, tornamos ambos frutos da nossa imaginação e produtos da nossa ideia. Um dos grandes problemas da autoajuda é a possibilidade que ela outorgou ao homem com a taxativa pense positivo que acontece. A noção de criar o fato exonerando o real pesou no pré-conceito e no pré-juízo dos indivíduos.

Karl Barth, tratando da natureza de Deus, denominou-O como “totalmente Outro”, uma expressão que a primeira vista poderia conter certo equívoco, pois esse intensificador “totalmente” pareceria opor radicalmente Deus ao homem, ou criar uma barreira quase impenetrável em ambos. Contudo, explicou-nos ele, adjetiva-lo assim é um passo válido para pudermos experimentar o mistério da natureza divina. Somente o que Deus revelou de si mesmo pode ser conhecido e comunicado pelo ser humano; o mais (trata-lo a partir da lógica e do raciocínio) é falar de um ídolo. “Jesus – diz Barth –, ao contrario do que os outros professores de religião fazem, não dá receitas que mostram o modo de se chegar a Deus. Ele é o modo por si mesmo”. Reconhecer o “Outro” que Deus significa é, portanto, dar abertura a uma alteridade que tem suas raízes na terra e os seus galhos no céu; é criar um princípio de unidade, de vislumbramento da Redenção como aquilo que ela é em fundo: um acontecimento real. Neste “Outro” está o dinamismo revelador daquele que ingressa no mundo, assume o nosso lugar, mantém conosco um altruísmo.

Santo Agostinho afirma nada ter o homem que não provenha de Deus. Nele reside a fonte da nossa existência, sua ação para conosco é sempre benévola, amorosa e zelosa: “Damo-vos mais do que pedis, para que sejais nosso devedor; mas quem é que possui coisa alguma que não seja vossa?[7]. A relação Deus-Homem fundamenta-se como precípuo processo cristianizador. Nela não se pode abnegar a capacidade extraordinária de mudança proporcionada à vida cristã exercida sempre na liberdade. Justamente porque ocorre no tempo e na liberdade, a Revelação ganha sentido pleno e pode fincar-se como ação de Deus na história.

Em suas anotações pessoais, São João Paulo II – então abatido pela doença e velhice – escreveu no exercício quaresmal de 2002: “Converter-se ao único necessário[8]. Que bela definição de Deus nos dá o Santo Papa – único necessário! Se a palavra converter denotava apenas um voltar-se para si mesmo (o termo hebraico shub significa inverter a rota, retornar ao próprio caminho); a partir de Jesus o significado da palavra ganha outra tonalidade, não porque Ele o tenha mudado, mas porque, com a sua vinda, todas as coisas mudaram [9]. Jesus Cristo nos ajuda a penetrar na intimidade de Deus, estabelece uma relação entre o Pai e nós, tornando-se, nesse sentido, o único intercessor citado na primeira carta a Timóteo (cf. 2,5). Ele quis se fazer necessário e nós sentimos a necessidade d’Ele.

No “admirável intercâmbio” [10] da Revelação, a Encarnação motiva-nos a olhar nossa relação com Deus a partir do mandamento. Malgrado é sabido que antes mesmo da encarnação Deus já havia estabelecido uma relação de amor com o homem, mas não apenas… Para garantir que este amor criaria vínculos de eternidade e que jamais seria incinerado pelo tempo, traçou, nos dois mais destacados mandamentos do decálogo, duas linhas: a vertical, sobre o amor com Ele; a horizontal, sobre o amor com o próximo: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu pensamento” (Dt 6,5); “e a teu próximo como a ti mesmo” (Lv 19,18).

A Igreja estabeleceu, ao longo da história, esta mesma sinceridade no relacionamento com o outro. Ela não deve refletir a si mesmo, não serve a sua própria glória, mas ao Evangelho. Ela dá glória a Deus por meio dos seus mártires e santos, figuras diáfanas no exercício do autêntico cristianismo. E, como recompensa da sua fidelidade, o Senhor sustenta a sua integridade e dela dá testemunho.

Amar o próximo como a si mesmo é o movimento natural para o que vê Deus como alteridade absoluta, o “totalmente Outro”. No “outro” do meu próximo revela-se sutilmente o outro de Deus; a forma como agimos com esse próximo se refletirá no próprio Senhor (Mt 25, 31-46). Devemos deixar que decline a afirmação do famoso sofista Protágoras, segundo a qual “o homem é a medida de todas as coisas”. É hora de reestabelecermos Deus como medida de tudo e de encontrarmos no homem a sua “imagem e semelhança”, sem que a imagem se torne a coisa em si. Aprendemos a fazer agora uma conversão exterior. Não apenas uma motivação interna incansavelmente pedida na oração para que Deus no-la conceda. Concedamos, nós, agora a Deus a nossa conversão exterior, aquela mesma que nos colocará novamente no itinerário da misericórdia.

Para isso nos ajude Maria, mãe e mulher da gratuidade. Ela que soube ser para nós modelo de alteridade, consentindo que a vontade de Deus se concretizasse em sua vida, torne-se hoje a indicadora do caminho da sincera reciprocidade, do coração aberto e acolhedor à dor dos que batem a nossa porta ou gritam desesperadamente por auxílio.

_____________________

[1] Cardeal Ratzinger, Ser cristão na era neo-pagã, p. 125

[2] Cardeal Ratzinger, Homilia da Missa Pro eligendo Pontifice (18 de abril de 2005)

[3] Mostra-me o teu rosto, p. 108

[4] Concílio Vaticano II, Gaudium et Spes, 16

[5] Papa Francisco, Bula Misericordiae Vultus (11 de abril de 2015).

[6] João Paulo II, Memória e Identidade, p. 45

[7] Santo Agostinho, Confissões, Livro I,4

[8] João Paulo II, Estou nas mãos de Deus, p. 622

[9] Cf. Frei Raniero Cantalamessa, Liturgia penitencial em preparação ao Jubileu da Cúria Romana (21 de fevereiro de 2000), Acessado em: <http://www.cantalamessa.org/?p=979&gt;

[10] São Gregório Nazianzeno, Sermão 45,9.22.26.28; PG 36,634.635.654.658-659.662

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