Revelação e Sagrada Escritura na vida da Igreja

Desde os tempos remotos, a Igreja procurou alicerçar-se sobre o tripé que constitui o fundamento da sua doutrina e a fonte de todo acontecimento cristão: a Revelação, a Tradição e o Magistério. Assim, ela não se funda unicamente sobre um destes aspectos, mas congrega os três de tal forma que se efetue cotidianamente o singular motivo que a faz notória pelo mistério que nela torna-se possível vislumbrar. Por isso, portadora da Boa Nova, o mistério do acontecimento pascal pode inserir-se na dimensão de uma Igreja que ora comunitariamente e continuamente, não se isolando em dimensões subjetivistas ou autossuficientes. Reconhece-se dependente da forma salvífica de Cristo sem a qual nada ela é.

A Revelação não se constitui como acontecimento isolado. Cristo é a verdadeira Revelação proveniente de Deus. Nele todas as coisas ganham sentido, desvelando o mistério da criação e restituindo a aliança que fora perdida pelo pecado dos primeiros pais. Ele é o ápice de todo desdobramento da criação e para reatar a relação do homem com o Criador, assume a forma humana revelando-nos o rosto do mesmo Deus e proclamando “o ano da graça do Senhor” (Is 62, 1-2; Lc 4, 19).

Todo desenrolar salvífico da temática da Revelação nasce do amor de Deus, que é destinado ao homem. Ele cria o ser humano e o ama, pondo nele a sua imagem e semelhança (cf. Gn 1,26). O Antigo Testamento narra desde essa trajetória até os últimos profetas, encontrando em João Batista o elo de transição. De fato, a compreensão de Deus era muito limitada para o povo hebreu, necessitando de sinais e formas efetivas para a comunicação entre ambos. Ele não poderia Se dar a conhecer – e ainda não o pode em toda a sua forma gloriosa. Desta feita, usa-se do próprio homem para falar ao homem, não apenas os de sua época, mas os de todas as gerações. Levando em conta isso, o povo da Antiga e da Nova Aliança nos legou a Sagrada Escritura, que contém a Revelação de Deus, o Logos (Palavra) por excelência.

Assim nos ensina o Catecismo da Igreja a respeito daquilo que está contido na Escritura:

Por isso os cristãos leem o Antigo Testamento à luz de Cristo morto e ressuscitado. Esta leitura tipológica manifesta o conteúdo inesgotável do Antigo Testamento. Ela não deve levar a esquecer que este conserva seu valor próprio de Revelação, que o próprio Nosso Senhor reafirmou. De resto também o Novo Testamento exige ser lido à luz do Antigo. A catequese cristã primitiva recorre constantemente a ele. Segundo um adágio antigo, o Novo Testamento está escondido no Antigo, ao passo que o Antigo é desvendado no Novo “Novum in Vetere latet et in Novo Vetus patet” (§ 129).

A Revelação divide-se em duas etapas: Pública e Privada. A Revelação Pública é aquela que concluiu-se com a morte do último apóstolo, São João. Essa contém a novidade do Reino de Deus, o cumprimento da profecia a respeito do Messias, o nascimento da Igreja, o acontecimento de Pentecostes. Por não poder conhecer a Deus plenamente com as suas próprias forças e capacidade intelectual, o homem recebe o privilégio desta Revelação divina[1]. A Revelação Privada é decorrente de visões ou aparições de Nosso Senhor ou dos Santos. Ela não pode estar em contradição com a primeira, mas deve ser lida e interpretada tendo como vertente principal o próprio Cristo que Se-nos comunicou por meio da Encarnação do Verbo e hoje por meio da Escritura. Um exemplo mais recente é aquela de Fátima, que no próximo ano completará 100 anos, quando Nossa Senhora apareceu aos três pastorinhos, na Cova da Iria. A Virgem revelou-lhes três segredos, que posteriormente foram dados a conhecer pela Igreja. O critério usado é sobretudo o de avaliar a não-contradição de aspectos que se oponham ao Evangelho.

Cinquenta anos distam do Concílio Vaticano II, que trabalhou minuciosamente a Revelação divina através da Constituição Dogmática Dei Verbum. Para além de uma análise escriturística, a mesma se propôs a dilatar sua meditação ao âmbito total da Revelação, desde o anúncio veterotestamentário até a consumação plena em Jesus Cristo. Por isso, em primeiro plano, procurou-se evidenciar que o Concílio “faz suas as palavras de S. João: ‘anunciamos-vos a vida eterna, que estava junto do Pai e nos apareceu: anunciamos-vos o que vimos e ouvimos, para que também vós vivais em comunhão conosco, e a nossa comunhão seja com o Pai e com o seu Filho Jesus Cristo” (1 Jo. 1, 2-3)”[2].

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[1] Catecismo da Igreja Católica, §50

[2] Dei Verbum, 1

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