Ninguém vive para si

Do individualismo e do subjetivismo sou grande crítico. Testemunhamos a depreciação no valor das relações sociais, características intrínsecas da constituição do homem e da sua estabilidade como ser não-solitário, dependente de um conjunto para sobrevivência, inserido num sistema natural para o qual existe.

No decurso dos séculos, impérios e ditaduras pareceram ganhar o auge, dominando territórios, devastando, disseminando o terror: dos babilônios aos romanos, dos gregos aos bárbaros, dos otomanos aos nazistas e fascistas. Todos eles pretensamente fundados sobre demasiada solidez; hoje, contudo, não passam de nomes inscritos no rol da história, assinalados com ódio e medo.

Os sistemas ditatoriais vão minando e cedendo por sua própria conta. Os homens, a natureza vai dando cabo: octogenários, nonagenários, quando muito, centenários. O tempo está imparcialmente estabelecido! O intelecto vai definhando junto a estrutura física; aos poucos surgem aquelas típicas doenças de complicada pronúncia: alzheimer, artrose, reumatismo. O vocabulário vai se enriquecendo quanto menor fica o tempo disponível: sacripanta, nefelibata, esdrúxulo.

Eric Voegelin ilustra a morte de Platão aos oitenta e um anos. Naquela noite, pediu o filósofo que uma garota trácia tocasse flauta para ele. A menina não conseguiu encon­trar o ritmo do nomos. Com um movimento de seu dedo, indicou-lhe a Medida. Nem todos têm a predisposição platônica de morrer melódica e sapiencialmente. Quiçá vivessem assim! Nem todos encontram a medida. No máximo, se dermos conta disto, tão logo criamos uma impenetrável crosta depressiva e mortal.

Noutro lado, quase sempre fazemos da reta final de alguém um acontecimento social. Grande parte gosta de velório, ainda há quem cobre para neles chorar. Outros o tomam como reversão em causa própria: “Ainda bem que não foi comigo!”. A “justa medida” de Aristóteles, retomada por Aquino, já não é “justa”, tampouco “medida”. No arcabouço dos pensamentos e desejos ganhou conotação irregular. Ante corretas decisões, prevalece o querer.

Aos vivos, augúrios de assim permanecerem por longa data (não tão longa, tornando a vida entediante, não tão breve tornando-a um lapso). Lembrem-se de, junto a longevidade, pedirem beleza, evitando a pífia anelação de Aurora. Esta apelou a Júpiter por Titono, seu marido antes amante, rogando-lhe longa vida. Descuidou da beleza e, por isso, o mesmo foi condenado a uma eterna velhice.

Boa semana!

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