Entre nós professores…

profesSurgiu-me o desejo de escrever aos colegas de profissão depois de escutar um programa muito caro a mim, transmitido pela TV 2000, da Itália, intitulado Soul, onde a apresentadora Monica Mondo entrevista reconhecidos nomes mundiais, de líderes religiosos a políticos e atores. Sobre esta entrevista, foi exibida em 2015, mas só recentemente a vi. O quadro é muito bom, a apresentadora conduz com sobriedade e segurança as perguntas, não se esquivando de propor questionamentos desafiadores aos entrevistados. Em uma de suas entrevistas, esteve o monge budista Shodo Habukawa, líder do mosteiro zen de Monte Koya, no Japão. O Budismo, sabemos, expressa uma interessante forma de vida. Penso sobretudo na busca pelo permanente estado de paz, evitando as preocupações e angústias que a vida parece impor. Mostram ao nosso Ocidente ávido por preocupações que o problema é um desafio que caracteriza nossa maturidade e crescimento. Se eles não existissem, certamente nos contentaríamos em permanecer estagnados na mesmice.

Ao ser perguntado sobre o que é ser professor, respondeu: “Professor significa alguém que já fez uma experiência de riqueza e com essa experiência pode guiar outros homens, particularmente os jovens. Essa é a missão que devo desenvolver”. Pois bem, amigos e colegas, somos detentores de um processo corajoso chamado “educar”. Essa arte poucos conseguem dominar, mas dela todos necessitam usufruir. Somos nós os primeiros desafiados a nos superarmos, vencendo o nosso fechamento ou abrindo-nos a novas possibilidades, com metodologias e formas criativas para educar. A arte de inovar é parte desse conjunto. Se não inovamos, para trás ficamos. Outros estarão potencialmente aptos a nos superar. O que até ontem poderia ser um fator de coesão e unidade, agora pode reclamar novas respostas. Com o ritmo vertiginoso de mudanças que se impõe em nosso ambiente de trabalho, devemos não esmorecer. Retrair diante dos desafios é próprio de quem tem medo; nós temos uma missão audaz e desafiadora: importunar a ignorância, abrir portas ao conhecimento, apresentar o novo.

Por outro lado, se bela é a tarefa, desafiador é o segundo ponto. Como podemos falar de saber quando nos retemos do aprendizado? Durante minhas experiências de estágios e em alguns ambientes profissionais, percebi a grande precariedade dos nossos professores em manter contato com a leitura e os livros. Penso: terá isso sido causado pelo cansaço em sala de aula? E logo sugiro outra pergunta: o que nos move a ensinar? Fazemos por felicidade ou por dinheiro? Se for por dinheiro, talvez estejamos no lugar errado. Confesso: sou feliz no que faço, e por isso continuo a fazê-lo. Quem faz aquilo que ama, ama ainda mais o que faz. Melhor do que auto realização é proporcionar a realização do aluno com o conhecimento.

Ninguém pode oferecer o que não tem. Ou o professor estabelece um contato íntimo com o conhecimento, mergulha em livros e leituras, ou o seu conhecimento terá estagnado no tempo, rendendo-se ao grupo daqueles que não leem e não abarcam novos horizontes. É fácil levantar o dedo em riste para acusar os alunos quando não cumprem suas obrigações e tarefas. Mas quando criamos óbices entre nós e o conhecimento, nos apontamos o dedo? Somos capazes de dizer: eu errei?

Se queremos que os nossos alunos leiam, leiamos também nós. É o nosso desejo que eles criem familiaridade com o conhecimento? Criemos em nós essa mesma familiaridade. Ao verem nosso exemplo, talvez se sensibilizem um pouco mais e resolvam armar-se de palavras, ao invés de revólveres. Empunhem o conhecimento da verdade em contrapartida das mentiras.

Prof. Ian Farias

Selva de pedras

Walber-Gonçalves-de-Souza3.jpgNosso tempo é conhecido não apenas pelo progresso científico ou o forte sentido de individualismo e desespero, como falamos na crônica precedente. Se a cultura individualista se sobrepõe fazendo sentir a sua própria insensibilidade, sem dúvida existe uma característica rotulante daquilo que vivemos em nossos dias como profunda mudança nos valores e na forma de ver a realidade que sentimos com toda força: a selva de pedras. É certo que o leitor pode pedir – com justiça – uma explicação acerca dessa palavra enigmática. O que quero falar com “selva”?

Vivemos em certo sentido como pessoas que não reconhecem mais o verdadeiro fundamento da vida, do tempo ou, talvez, do próprio existir, que tornou-se qualquer coisa manipulável, possível de mudar segundo pensamos. Em nada mais nos demoramos; tudo é fruto de uma mudança veloz e desgovernada. Aquilo que Heráclito chamava de estado permanente de mudança da natureza, agora aplica-se aos sistemas econômicos, ao pensamento e ao social media.

A selva de pedras poderia primeiramente refletir a realidade das cidades grandes, onde construções edificam-se a todo instante e não há momento em que nada esteja sendo construído, porque construir representa não apenas a expansão demográfica, mas trabalha estética e empreendedoramente o reflexo do impulso econômico que se exerce sobre determinada localidade. Passamos a todo instante ao lado de construções, de projetos estampados com sinônimos como “Brasil: um país de todos” ou “Governo Federal: ordem e progresso”. Sem entrar no positivismo de Comte que vem assinalado em nossa bandeira nacional, me pego de fato pensando e questionando: “país de todos” ou “ordem e progresso” não são no máximo a representação de uma parte ínfima da população, nominalmente conhecida também como “governantes”? Hoje podemos assistir mais significativamente a queda da meritocracia brasileira, revestida durante muito tempo de falsa democracia. Construir tornou-se sinônimo de apostar no futuro, no potencial financeiro, criando também falsas certezas naqueles que o fazem. Pode ser que o comércio venha a não dar rendimento necessário ou que a economia, como vimos recentemente, chegue à beira do penhasco. Ainda assim, ousa-se apostar!

Por outro lado, relevando os aspectos negativos (fosse assim ninguém em nada apostaria), a consequência da sociedade de pedras está para além dos engenhos arquitetônicos. As pedras hoje não são aquelas que sustentam os grandes prédios, museus, fortes, palácios ou catedrais, às vezes medievais. Agora elas são os homens, ilhas falantes, pedras que andam, verdadeiras rochas, apáticos a qualquer reação externa. A condição foge da simples linha filosófica e chega a tornar-se patológica. O ritmo de vida frenético não nos permite olhar para os quatro lados, muito menos para cima. O pensamento vagando desmesuradamente não vê abaixo quem estende a mão. Perdidos de nós e perdidos em nós, parecemos encarnar a possibilidade de que os zumbis não são tão impossíveis de se tornarem realidade: já o são agora nos ativistas que programam-se metodicamente sem usufruírem da beleza de viver.

De repente, ouve-se um grito. Uma mãe chorosa, uma esposa lamentando-se, filhos inconformados. Alguém tão desatento foi atropelado pelo tempo. O famoso escritor português José Tolentino, poeta, padre e literato, escreveu um opúsculo intitulado Libertar o tempo, no qual propõe uma imediata “arte da lentidão”. Essa seria o empenho do homem diante da sua existência metódica e enfadonha, onde o ritmo agitado parece dar-lhe uma proporção além de sua conta. Projeta-o para ser o que não suporta. Sobrecarregado, deixa que a vida passe por ele sem que ele passe pela vida. Ao invés de protagonista, torna-se, à maneira de Ésquilo, deuteragonista, personagem secundário. O lema do “bom vivant” encaminha-se por obviedade na linha contrária de quem assume o controle de sua vida.

Selva de pedras, de prédios e de gente. Pode alguém sentir-se bem nesse ambiente de indiferença? As relações interpessoais veem-se afetadas e os dilemas parecem ainda mais angustiantes. Talvez seja esse o momento de avaliarmos o eu como espaço das perguntas… Isso, porém, trabalharemos em breve.

Até a próxima!

Ian Farias

O homem prisioneiro de si

O século XX ficou conhecido como o período das ditaduras mais repressivas e desumanas da história. De um lado os nazistas com a sua fábrica de horrores na Alemanha, invadindo os países no intuito de unificar todas as nações sob um regime. Com a ideológica raça ariana, eliminou judeus (6 milhões de mortos), homossexuais, negros, deficientes. Os campos de concentração tornaram-se o cenário da vergonha sobre até onde pode chegar o ser humano. A maldade humana viu-se escancarada em todo o seu potencial. Do outro a Rússia, fincada no comunismo, devastando países e mais países, posteriormente invadiu também a Europa com um projeto mais pacífico que os nazistas, mas instalando sorrateiramente a falta de fé e o totalitarismo. Sobre o número de mortos, fala-se mais ou menos de 100 milhões, segundo O livro negro do comunismo. A promessa de esperança dos comunistas naufragou quando tirou Deus do seu horizonte e no lugar colocou a luta pelo homem como única resposta aos anseios da existência. Os europeus logo lembraram-se de suas origens e ressuscitaram entre si o ideal primeiro que durante séculos moveu a história e a cultura do seu continente.

A grande questão não são os regimes precedentes, que tanto retalharam a dignidade do ser humano. Após essas ferrenhas ditaduras que mataram os homens do passado, estão as que matam os homens do presente, não mais com o cenário desolador dos campos de concentração, senão com a ideia da autossuficiência que pretende fazer o homem impor-se como senhor de si, estatuindo claros limites entre o bem e o mal, denegrindo a sua condição de ser. A raiz dos males de hoje não foram surgimentos repentinos, provindos do nada, mas a consecução de fatores que eclodiram na presente construção do pensamento pós-moderno (modernidade liquida). É sobretudo entre os religiosos, educadores (de modo particular, nós professores), pais, que se inicia o processo de desconstrução ou de não-aderência a essa posição.

A ditadura vigente em nosso tempo, deliberadamente, chama-se individualismo ou autossuficiência. Chamamo-la assim porque tem a pretensão de confinar o homem em suas próprias forças, reduzindo-o a esse potencial de intelecção e ação que não é capaz de alçar longos voos além do seu círculo social e político. Toda corrente ideológica de isolamento do homem é em si um processo de autodestruição, de ruptura, de perda do rumo, o verdadeiro retrocesso que não compreende a possibilidade do diálogo e do crescimento, o confinamento em um mundo psicológico, longe de toda possível convivência com o mundo real. Sim, não podemos negar que em grande parte o impulso desse isolamento foi dado a influência causada pelos meios de comunicação, que estabeleceu uma barreira entre o idealismo e o real, levando-nos a pessoas capazes de sonhar muito, mas de nada fazer para que o sonho ganhe dimensões concretas.

Somos, portanto, prisioneiros de uma ditadura mais daninha porque não é uma força externa que se impõe ao interno, mas internamente já nos fizemos cativos de uma condição fraca, débil e vulnerável a qualquer forma de pensamento. A antiga competição por quem lia mais livros ou produzia mais obras, ganhou nova roupagem na futilidade das competições por quem tem o corpo mais escultural ou a melhor academia ou a melhor roupa… Resta pensar já não existir mais o sentido real do homem. Aquele desejo incontido que Schopenhauer fala em sua obra O mundo como vontade e como representação parece cada dia mais latente.

A conquista da independência é necessária, mas independência não é sinônimo de individualismo, autossuficiência ou isolamento. Saber-se independente é usar de uma autonomia responsável e respeitável, pensando no bem dos que nos circundam e nos direitos e deveres dos quais a consciência nos encarrega. Segundo afirmava o Cardeal John Newman: “A consciência tem direitos, porque tem deveres” (A Letter Addressed to His Grace the Duke of Norfolk: Certain Dificulties Felt by Anglicans in Catholic Teaching. Uniform Edition: Longman, Grenn and Company, London, 1868-1881, vol. 2, p. 250). Alguns critérios modernos propõem em novo modo a relação da liberdade com a consciência moral, com a natureza humana e a consciência. Tal relação vê-se pautada em critérios que pressionam uma inserção forçosa aos “padrões” culturais e sociais, tão frequentemente nomeados como “moda”, “estilo”, “do momento”.

Fica o convite a não nos contentarmos ao pensamento massivo da mídia, nos lançando na desafiadora e necessária busca acerca do homem e do seu papel fundamental na sociedade. O espaço ideal é a consciência, ampliando-a aos locais de convivência e socialização: escolas, igrejas, trabalhos, residências. Retirar-se do isolamento para compor o cenário da Pólis, segundo Aristóteles, o espaço fundamental para exercer o seu papel e tornar-se ser de virtudes.

Bom final de semana!

VIA SACRA 2018

imagesCom grande alegria, apresento aos amigos leitores do site a Via Sacra 2018, com meditações e orações escritas por mim, além das orações extraídas de Cardeais e Papas. Percorreremos no presente ano os últimos instantes do Senhor através do seu desdobramento eclesiológico, ou seja, como a Via Crucis de Jesus torna-se também a Via Crucis da Igreja, que não se aparta das dores do Mestre, mas assume-as como sua.

O itinerário quaresmal é propício para revivermos os mistérios da salvação, mergulhados em Cristo e caminhando para a vida eterna.

Esse ano a novidade é a apresentação e aprovação do nosso Bispo diocesano, Dom José Ruy Gonçalves Lopes, OFMCap, que leu com grande zelo e acurado senso doutrinal e filosófico as reflexões por mim propostas.

Disponibilizo abaixo o texto meditativo e espero que o caro amigo possa fazer-se, também ele, peregrino nesse instante de dor e esperança.

via sacra 2018

Ian Farias